Duas belas mulheres

Sobre os documentários CORA CORALINA – TODAS AS VIDAS e SILÊNCIO NO ESTÚDIO

Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. Antes disso, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889 – 1985) teve várias “vidas”. Foi menina complexada, moça intrépida que fugiu de casa grávida, freira depois de viúva, comerciante e doceira famosa. A poesia viria juntar tudo isso em muitas estrofes autoficcionais, em que descreveu ambientes e experiências com liberdade lírica e um denso sentido de imagem. A “velha casa da ponte”, na Cidade de Goiás (antiga Goiás Velho), é o epicentro de sua poética.

CORA CORALINA – TODAS AS VIDAS, de Renato Barbieri, segue o mote da multiplicidade (“Eu trago comigo todas as idades”). Baseado no livro “Cora Coralina: Raízes de Aninha”, de Clóvis Britto e Rita Elisa Seda, o filme mescla depoimentos de parentes e pesquisadores com declamações por atrizes como Camila Márdila, Zezé Motta, Walderez de Barros e Beth Goulart, e mais vinhetas dramatizadas de Ana/Cora em várias fases da vida.

Nota-se uma tendência estetizante nesse trabalho de Barbieri, sobretudo no tratamento das encenações – com bonita fotografia de Waldir de Pina – e no uso intensivo da trilha sonora, uma suntuosa suíte de Luiz Olivieri e Eduardo Canavezes. A meu ver, essa opção estilística briga um pouco com a retórica da humildade adotada pela poeta goiana, uma cantadora das coisas miúdas, dos lixos sem valor e do ego descamisado. Ainda assim, o mix de documentário e ficção se ancora bem na relação dúbia que Cora Coralina mantinha com a autobiografia. E se afirma como uma introdução abrangente, cativante e muito bem realizada às suas vidas e a sua obra.



Muitos documentários biográficos de artistas são criticados por darem pouca atenção à vida pessoal do personagem, ou mesmo se esquivarem disso em nome do “foco no profissional”. Esse risco não corre SILÊNCIO NO ESTÚDIO, o perfil que Emilia Silveira construiu de Edna Savaget. Talvez corra até o risco contrário. As atividades de Edna como radialista, pioneira comunicadora de TV e escritora estão cobertas pelo filme, é claro, mas há um interesse evidente em compor um retrato de mulher para além do trabalho.

Uma mulher corajosa e cheia de personalidade, que, segundo Artur Xexeo, tirou a “goma” da televisão e instituiu a conversa coloquial diante das câmeras. Longe do papel da dona de casa burguesa promovido pelos programas “femininos” da velha TV, Edna fazia crítica política, falava de livros, entrevistava gente de esquerda e compartilhava no ar a profunda amizade com a travesti Claudia Kendall, sua maquiadora até o caixão funerário.

Em parceria no roteiro com a filha e produtora de Edna, Luciana Savaget, Emilia obtém um raro equilíbrio entre informação profissional e referências pessoais. Uma coincidência aproxima Edna de Cora Coralina, personagem de outro doc em cartaz: ambas tinham complexo quanto à aparência na infância. Mas isso seria logo superado com elegância e inteligência. As atitudes firmes e decididas de Edna Savaget transmitem a imagem de uma mulher que não compactuou com a crescente banalização da TV brasileira e nunca adotou o modelo de star. Num achado feliz do roteiro, alusões ao gosto de Edna pelo uísque são seguidos de um hilário anúncio em que ela propagandeia as virtudes de “Tiralcool”, um remédio contra o alcoolismo. A infelicidade no casamento, insinuada em vários momentos do filme, mas não completamente esclarecida, fica como uma sombra a encobrir outras sombras da vida de Edna.

SILÊNCIO NO ESTÚDIO padece um pouco da dependência em relação a materiais de arquivo do início da TV e de gravações familiares que, pelo estado muito precário, valem mais como relíquia do que como informação visual. Mas é com essas imagens que Emilia Silveira ganha a oportunidade de contar um pouco dos primórdios da nossa TV pelo ponto de vista do protagonismo feminino.

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