As viagens ensaísticas de Cavi e Patricia

Quem me conhece sabe que cinema e viagens são as minhas grandes paixões extra-humanas. Às vezes chego a pensar que vou ao cinema mais para viajar do que qualquer outro objetivo. E que viajo mais para fotografar e filmar do que qualquer outra razão. Quando encontro as duas coisas juntas – o cinema e a viagem -, aí então o prazer é multiplicado.

O produtor e diretor Cavi Borges e sua mulher, a bailarina e atriz Patricia Niedermeier, também curtem esse binômio de maneira especial. Viajam e filmam com igual satisfação e um entusiasmo jovial. Mas eles costumam ir além do mero registro de suas andanças pelo mundo, geralmente em festivais de cinema. Patricia interage com os lugares em performances improvisadas e, assim, o casal se apossa dos cenários de maneira livre e poética.

Eu já conhecia alguns desses exercícios soltos de “ocupação” artística momentânea, mas a minha apreciação deu literalmente um salto diante do longa-metragem SALTO NO VAZIO, que Cavi e Patricia finalizaram há pouco. Nesse filme, o périplo da dupla dá origem a um ensaio romântico e até mesmo épico sobre o sentido das viagens e as distâncias do amor.

Tudo começa com um longo (mesmo!) beijo do casal diante de um mar encrespado. Segue-se um monólogo de Patricia sobre um almejado encontro amoroso em Cannes e a função dos mapas na definição de trajetos e destinos. Logo percebemos que o casal em pauta é outro, envolvendo um fotógrafo de guerra, o que retira o filme da esfera autobiográfica documental e o atira na terra-de-ninguém da ficção. SALTO NO VAZIO ratifica seu título, carregando o espectador para uma excursão cheia de imprevisibilidade.

A montagem do craque Christian Caselli articula diferentes materiais e cenários numa perspectiva única, a dessa mulher empenhada num corpo a corpo com parques, águas e muros enquanto se dirige a um encontro anunciado e capaz de preenchê-la inteiramente. O filme é modulado em cartas e mensagens, um dos dispositivos mais frequentemente encontrados nos filmes-ensaio. A construção de uma subjetividade interrogante e interpretativa também ajuda a filiar SALTO NO VAZIO à vertente do cinema ensaístico na modalidade “viagem” definida por Timothy Corrigan no seu livro fundamental sobre o gênero.

Sempre com uma pegada experimental na formatação das imagens e uma trilha musical extremamente envolvente, a esguia e lépida Patricia dança diante do Muro de Berlim, numa praia de Cannes ou no Parque do Flamengo; corre desabalada numa sequência magistral entre os blocos labirínticos do Memorial do Holocausto berlinense; vagueia ninfa na Pedra do Arpoador. O roteiro (n)os leva também a Praga e Nova York, incorporando cada local a essa história de amor e guerra que sugere um Godard traduzido na pós-modernidade.

SALTO NO VAZIO está agora procurando seu espaço em festivais antes de chegar ao circuito. Por ser um filme inspirado justamente pelas viagens a festivais, espera-se que tenha reconhecida sua beleza no trânsito e sua capacidade de sugestão sobre a cartografia das paixões.

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