Nordeste: boxe e poesia

Sobre os documentários A LUTA DO SÉCULO e O SILÊNCIO DA NOITE É QUE TEM SIDO TESTEMUNHA DAS MINHAS AMARGURAS

Ou esbagaça ou estraçaia

No pano de fundo de A LUTA DO SÉCULO está a proverbial disputa de prestígio entre Bahia e Pernambuco. Ela é personificada pelos pugilistas Reginaldo “Hollyfield” e Luciano “Todo Duro”, que alimentam uma rivalidade brincalhona (mas nem tanto) há mais de 20 anos. O documentário de Sérgio Machado, premiado no Festival do Rio, começa por recontar essa história clássica do boxe brasileiro com imagens preciosas de arquivo, em que os adversários não hesitavam em sair na porrada toda vez que se encontravam, de preferência diante de câmeras.

O marketing das lutas populares vive dessa teatralização do antagonismo. Mas com Hollyfield e Todo Duro as coisas sempre evoluíam para a fronteira entre o folclore e a veracidade. O baiano e o pernambucano, ambos de origem humilde e pouco letrados, não deixavam de ser personagens de uma comédia, como os velhos lutadores de telecatch. Se um ameaçava “esbagaçá” o outro, recebia de volta a promessa de ser “estraçaiado”.

Dez anos depois de seis lutas com saldo equilibrado, os inimigos figadais voltam a se encontrar em 2015 para um desempate. É a “luta do século”. É quando o filme sai dos arquivos para a vida en direct, assumindo um tom diferente. Os boxeadores estão mais velhos, passaram por duras provas na vida e precisam manter vivo o teatro da rivalidade. Pela força do destino, eles encarnam tipos opostos. O baiano Holyfield é evangélico, sóbrio, tem pretensões políticas e um ato de heroísmo no currículo. Todo Duro é expansivo, fanfarrão, sultão de mulheres e pai amoroso. Enfim, uma dupla talhada para se enfrentar na fronteira entre a rixa e a comicidade.

“Rocky, um Lutador” poderia ser a contraparte ficcional para essa crônica amável do boxe nordestino. A competição entre os dois se deu também no cinema. Depois que a carreira de Todo Duro foi retratada no documentário Vou Estraçaiá (2011), os fãs do rival trataram de responder com Reginaldo Holyfield, o Miseravão (2012). A LUTA DO SÉCULO faz o bom trabalho de reunir os dois num mesmo filme. Um perigo para a integridade do equipamento de filmagem.



Poesia que brota da boca do povo

O título já é quase um poema: O SILÊNCIO DA NOITE É QUE TEM SIDO TESTEMUNHA DAS MINHAS AMARGURAS. O longa documental do pernambucano Petronio Lorena está sendo lançado em capitais como São Paulo, Recife, João Pessoa e Curitiba, mas ainda não no Rio. Para nós é uma pena. Petronio mergulha com gosto na prosódia dos poetas populares dos sertões de Pernambuco e da Paraíba. O essencial está nas vozes, claro, mas o filme também cria uma prosódia de imagens do agreste para acomodar muito bem as cantorias, desafios, sonetos, “mourões perguntados” e outras modalidades de poesia que brotam como água da imaginação e da boca dos poetas.

Novos criadores expõem seus versos e recordam os de velhos poetas já desaparecidos. A memória oral se consolida de geração para geração, transformando o que nasceu como improviso em acervo permanente. Toda uma linhagem de inteligência, verve e sensibilidade é desfiada nas histórias, lembranças e exemplos rimados. As legendas são fundamentais para que o espectador nada perca do linguajar colorido e da velocidade com que é empregado.

A maioria é de homens, de várias idades, mas duas mulheres roubam as cenas e boa parte do que fica em nossa memória: a velha Severina Branca (foto), autora do belíssimo poema que forneceu o título do filme, e Graça Nascimento, com seus épicos poemas sobre a “rola” masculina. Todos praticam a poesia em qualquer tipo de situação – das mesas de bar às rodas de improvisação, das conversas do dia a dia a uma visita a doente em hospital. A presença da poesia é tão contagiante que muitas vezes não se reconhece o limite entre a fala comum e o verso.

A cachaça, e mais recentemente a maconha, são combustíveis comumente usados para “exacerbar os sentimentos” dos poetas, como diz um deles. Numa sequência especialmente feliz, Petronio Lorena “embarca” com suas imagens numa viagem psicodélica. Os elos entre costumes do passado e do presente ficam mais claros, assim como a bonita parceria que o filme estabelece com seus personagens. Por mais espontâneo que tudo esteja dentro do quadro, existe uma intenção estética que se associa ao que vem dos poetas sem nunca se sobrepor. Nisso estão a graça e a grandeza de O SILÊNCIO DA NOITE…

Leia também uma boa entrevista de Petronio Lorena a Maria do Rosário Caetano.

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