Esta Não é a sua Vida

Publico hoje o segundo dos dois textos que escrevi para o livro Documentário Brasileiro – 100 Filmes Essenciais, editado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e lançado em outubro último.

Três dos quatro primeiros filmes de Jorge Furtado podem ser vistos também como ensaios sobre a capacidade de afirmação do cinema. Em Barbosa (1988), dirigido a quatro mãos com Ana Luiza Azevedo, temos uma ficção tentando “corrigir” uma derrota histórica. Ilha das Flores (1989) organiza operações intelectuais para embasar uma denúncia social. Por sua vez, Esta Não é a sua Vida (1991) constitui um pequeno tratado sobre as potências e os limites do documentário. Pouco se refletiu sobre a importância desse curta na formação de uma consciência do documentarista brasileiro contemporâneo.

Bem antes de Eduardo Coutinho consagrar seu método de trabalho com pessoas comuns e não representantes de grupos sociais definidos, Furtado escolheu ao acaso a dona de casa Noeli Joner Cavalheiro, moradora de um subúrbio de Porto Alegre. O acaso como dispositivo de eleição de personagem lança o filme num território incerto. Noeli é o oposto da personagem extraordinária, estereótipo comum em perfis cinebiográficos. Vive dentro do seu projeto de dona de casa feliz e conformada. O contato com o “outro mundo” do cinema, porém, vai trazer à tona uma insatisfação latente, que a faz sonhar com outro tipo de vida.

Até aí temos duas potências do documentário: a de sair do “lugar incomum” que preside seus interesses habituais; e o de interferir na vivência de quem é filmado. A vida depois do filme nunca é a mesma para gente como Noeli, e a ética do documentário deve sempre levar isso em conta. Uma terceira potência é a da revelação. Afinal, por trás da aparência e dos relatos singelos de Noeli existe um magma vital pronto para emergir. Ela foi adotada pela madrinha, teve inúmeros noivados em que tripudiou das expectativas masculinas e ousou casar-se com um negro em ambiente de colônia alemã. Pouco a pouco, vemos uma Noeli sair de dentro da outra como se o filme descascasse uma fruta com a ponta dos dedos.

Assim Furtado retira sua personagem do emaranhado de dados estatísticos que costumam representar as pessoas comuns e mostra o que pode existir de extraordinário em uma delas, escolhida ao léu. Como em Ilha das Flores, a construção retórica é essencial. A narração empostada de José Mayer contrasta com a voz plácida de Noeli, ajudando a compreender a diferença entre dados e pessoas, entre discurso e experiência.

Mas é a narração também que expressa o ponto de vista do autor a respeito do seu ofício. Dirigindo-se ambiguamente a Noeli e ao espectador, ela inicia e conclui o filme com as frases “Eu não sei quem você é” / “Eu não tenho como saber quem você é” / “Eu nunca saberei quem você é”. Aí se misturam uma tranquilização do espectador a respeito do seu anonimato e uma confissão de impotência quanto à capacidade de um filme definir uma pessoa.

Convém lembrar que o título parodia um programa de TV muito popular nos anos 1960, Esta é a sua Vida, em que um personagem homenageado tinha sua história contada através de encontros-surpresa com figuras importantes na sua biografia. Furtado questionava essa afirmação peremptória introduzindo um “não” fundamental. O cinema-verdade brasileiro atingia então uma culminância (Cabra Marcado para Morrer fizera o mesmo, de outra maneira). A partir dali, duvidar sobre o poder de reprodução no documentário tornou-se um método de criação, como se pode ver em filmes de Coutinho, João Moreira Salles, Evaldo Mocarzel e outros. O mundo é sempre maior que sua representação, e admitir isso é um bom começo para quem pretende lidar com o real.

A exposição da situação de filmagem como parte do processo de composição é igualmente determinante em Esta Não é a sua Vida. O metafilme se estabelece em vários níveis – da consciência expressa de que se trabalha nos limites de uma representação para ser vista no cinema ou na TV à incorporação das imagens de vídeo nas quais Noeli comenta sobre a abordagem e a convivência com a equipe.

A reunião desses diversos procedimentos num só filme o elevam ao patamar de uma sintética teoria do documentário em tempos de novas demandas. No reconhecimento da limitação e na escolha do pequeno, Jorge Furtado transcendeu ambas as coisas e chegou aonde poucos documentários brasileiros modernos tinham chegado até então.

É curioso que, 26 anos depois, o diretor produziria uma rima com esse curta no longa Quem é Primavera das Neves, assinado em parceria com Ana Luiza Azevedo. O anonimato aqui é de outra natureza. Primavera das Neves foi uma tradutora e poeta que o tempo esqueceu. Escolhida não ao acaso, mas justamente por ser quem foi, ela revive através de uma pesquisa apaixonada de Furtado. A afirmação do título parece contradizer o princípio norteador de Esta Não é a sua Vida, mas a narrativa do filme acaba por reconstituir a dúvida sobre quanto ficamos sabendo ou ignorando da personagem-título. O ponto de interrogação é presumido. A afirmação, sempre, é um engodo.


O outro texto que fiz para este livro foi sobre os Irmãos Salles. Leia aqui.

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