O melhor amigo do cão

ILHA DOS CACHORROS

O cinema de animação é pródigo em animais que se rebelam contra o destino imposto por seus donos e servem como metáfora para o inconformismo dos homens. A Fuga das Galinhas e Shaun, o Carneiro são exemplos recentes. Em ILHA DOS CACHORROS, os bichos têm que lutar contra sua extinção numa cidade do Japão controlada por um prefeito pior que o Cão chupando manga.

Interesses espúrios, entre os quais a implantação de cães robóticos, estão por trás da iniciativa de mandar os cachorros de carne e osso para o degredo numa ilha de detritos industriais, cenário pós-apocalíptico. Enquanto a oposição Pró-Cão se mobiliza, o pequeno Atari, sobrinho do prefeito, não se conforma em perder seu cachorrinho de estimação e parte para resgatá-lo.

A aventura, ambientada em futuro próximo, pode ter um pano de fundo em realidade específica. Nos últimos 20 anos houve um boom na adoção de cachorros pelas famílias japonesas, além da mudança do status de animal utilitário para o de companhia pessoal. A “saturação canina”, citada no filme,  talvez não seja mera ficção para muita gente por lá.

Wes Anderson e sua fauna

Wes Anderson trata seus personagens de quatro patas com a mesma graça esquisita dos humanos de filmes como Moonrise Kingdom e O Grande Hotel Budapeste – que, aliás, parecem ter a animação no seu DNA. Entre os heróis peludos destaca-se Chief, um cão de rua que recusa o papel de “amigo fiel”, talvez nostálgico dos tempos anteriores à “Era da Obediência”.

À parte a concepção visual exuberante, com a obsessão de Anderson pelas simetrias e as angulações excêntricas, o que mais me agradou foi a caracterização dos cachorros e suas interrelações. O humor e a relativa novidade do filme vêm muito do que ele se diferencia da média de animações hollywoodianas. Em lugar da busca de similitude com o real, temos movimentos “duros” muito engraçados, planos chapados e efeitos que lembram Méliès. Troca-se o tom melífluo por vozes “adultas” e uma narrativa mais tortuosa. Ao invés de musiquinhas açucaradas, somente um par de canções desanimadas e uma trilha sonora retumbante de Alexander Desplat. Em vez de correria e histeria, um ritmo mais pausado, sem prejuízo de uma inventividade gráfica quase ininterrupta.

Kimonos, gravuras, sumô, sushi, hai kai e kabuki não faltam para pontuar a niponicidade da história. Com direito a uma divertida participação vocal de Yoko Ono como… Yoko Ono. O elenco de vozes na versão original em inglês é um dream team, mas eu aconselharia a versão dublada para uma melhor fruição das imagens.

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