A Cavídeo é de maior

“Salto no Vazio”

Ícone da cultura cinematográfica carioca e uma das produtoras mais ativas do Brasil, a Cavídeo está comemorando 21 anos com uma mostra a partir de amanhã (quinta) no Estação Net Botafogo. Serão sete pré-estreias de longas-metragens em sessões com debate, quatro curtas e homenagens aos 90 anos da bailarina Angel Vianna, ao diretor e músico Sérgio Ricardo e ao judoca Mehdi.

Na verdade, o que está atingindo a “maioridade” é a locadora Cavídeo, que continua aberta com 26.000 títulos apesar da queda na procura por filmes em suporte físico. A produtora, uma “menina” de 15 anos, exibe no seu currículo a alavancagem de vários realizadores jovens – alguns saídos de comunidades de baixa renda – e o resgate da carreira de veteranos como Luiz Carlos Lacerda, Sérgio Ricardo e Luiz Rosemberg Filho.

Na abertura, quinta às 21h30, será exibido o documentário Semente da Música Brasileira, de Patricia Terra, seguido de debate com a diretora e mediado por mim. Com imensa simpatia, a história do mítico Bar Semente é contada pelos músicos e empreendedores que sustentaram durante 20 anos aquele núcleo de celebração e renovação da nossa música. Apesar de o Semente ter fechado suas portas há quase um ano, não podia haver escolha mais alto astral para abrir a mostra.

“Bandeira de Retalhos”

Na programação consta o mais recente longa de Sérgio Ricardo, Bandeira de Retalhos, baseado na experiência de resistência presenciada pelo diretor quando morava no Morro do Vidigal, nos anos 1970. Escrevi sobre o filme nesse post. O Rio de Janeiro é tema específico também de Cidade Invisível, de Terêncio Porto, que propõe “uma arqueologia às avessas ao questionar o mito da Cidade Maravilhosa e a irreverência do carioca”. O documentário parte da vinda da família real portuguesa para o Rio em 1808.      

Marcus Faustini mostra a ficção Vende-se Esta Moto, drama familiar de periferia com elenco supimpa: João Pedro Zappa, Vinicius de Oliveira, Mariana Cortines e Silvio Guindane. Já o incansável Noilton Nunes apresenta Sigilo Eterno, filme que vem acalentando há vários anos e cuja sinopse não podia ser mais discreta: “O filme que salvou a humanidade”.

Pode causar estranheza a ausência de Os Príncipes, novo longa de Luiz Rosemberg Filho, produzido pela Cavídeo. É que durante a fase de pós-produção, desavenças surgiram entre o diretor e o produtor Cavi Borges, que resolveu se afastar do filme.

Dois longas da mostra são dirigidos pelo próprio Cavi. Um deles é o documentário de viagem ensaístico Salto no Vazio, assinado também pela atriz Patricia Niedermaier. Em seus périplos pelo Brasil e por festivais de cinema no exterior, o casal executa performances e engendra um ensaio romântico e até mesmo épico sobre o sentido das viagens e as distâncias do amor. Minha resenha desse filme está aqui.

Popole Misenga em “Heróis”

O outro longa de Cavi Borges é Heróis, um retorno do diretor-produtor a suas origens. Dos quatro aos 28 anos, ele treinou e competiu no judô, inclusive profissionalmente. Depois passou para o rinque do cinema, mas nunca perdeu a admiração pelo esporte. A partir de um projeto de curta sobre Rogério Sampaio, campeão olímpico de 1992, Cavi estendeu suas câmeras também para a campeã mundial Rafaela Silva e o congolês Popole Misenga, primeiro refugiado a vencer uma luta de judô em Olimpíadas. A reunião desses três curtas deu origem ao longa Heróis.

Em comum nos três casos estão o sonho olímpico, a dedicação extrema e o treinador Geraldo Bernardes, que preparou judocas brasileiros para quatro Olimpíadas antes de se dedicar à formação de novos talentos num projeto seu e depois no Instituto Reação. Mas o que dá um colorido especial ao filme são as diferenças.

Rafaela Silva é fruto puro da iniciativa de Geraldo Bernardes. A euforia das cenas de sua conquista do título mundial em 2013 contrasta abruptamente com a modéstia da comunidade onde ela vive, na Cidade de Deus. Rafaela é exemplo do potencial de superação de uma condição desfavorável. O trauma de uma derrota em Londres em 2012 só foi debelado com muito empenho dela e de seus preparadores.

Já Rogério Sampaio, o mais velhos dos três protagonistas, vem de família de classe média de Santos e teve melhores condições de desenvolver suas aptidões. Enfrentou, porém, dois inimigos difíceis: a perda do irmão também judoca, que se suicidou, e o rompimento dos atletas com a Confederação Brasileira de Judô, que por pouco não arruinou sua carreira.

Por fim, o refugiado Popole Misenga traz para a cena a questão do acolhimento e da agregação identitária. Através do judoca, hoje casado com uma brasileira, somos apresentados à pequena comunidade de congoleses que mora em Brás de Pina, subúrbio do Rio. Um salão de cabeleireiro e uma igreja evangélica são pontos de reunião desses imigrantes, que se alegram ao poder falar a própria língua e saborear iguarias trazidas “hoje mesmo” (sic) da África.

Movido pela simplicidade e a simpatia, com esses três exemplos Cavi potencializa o seu querido judô como uma janela para se ver mais além dos tatames.

A Mostra Cavídeo 21 Anos vai até o dia 25 de julho e exibe ainda os curtas Outono, de Anna Azevedo, Mehdi, de Cavi Borges, Paraíso Insólito, de Anselmo Vasconcellos, e O Menino da Calça Branca, de Sérgio Ricardo.

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