A “cura” que adoece

Boy Erased e O Mau Exemplo de Cameron Post mostram a “cura gay” como um matadouro de almas e uma fábrica de desajustados perante si mesmos

Pelo menos 700 mil LGBTQs já fizeram terapia contra a homossexualidade nos EUA, onde a prática é permitida legalmente em 36 estados. A informação vem nos créditos finais de Boy Erased: Uma Verdade Anulada¸mas poderia estar também nos letreiros de O Mau Exemplo de Cameron Post. Ambos os filmes têm à frente jovens submetidos por suas famílias cristãs a um programa de conversão heterossexual. Chega a ser incompreensível que prática tão obscurantista tenha lugar em pleno século XXI.

Boy Erased teve sua estreia nos cinemas brasileiros cancelada pela Universal Pictures, que decidiu lançá-lo somente em DVD, alegando razões comerciais. Já Cameron Post continua no catálogo da Pandora Filmes com lançamento previsto para abril. Um como outro fustigam o conservadorismo galopante ao mostrar que a “cura gay” é um matadouro de almas e uma fábrica de desajustados perante si mesmos.

Baseado no livro autobiográfico de Garrard Conley (no filme tratado como Jared Eamons e interpretado por Lucas Hedges), Boy Erased tem elenco forte, com Nicole Kidman e Russel Crowe vivendo os pais, e ainda a participação luxuosa de Xavier Dolan como o amigo Jon. Jared é um rapaz retraído do Arkansas, que vive uma experiência desagradável com um colega de colégio e, confuso sobre sua sexualidade, aceita se internar na instituição Love in Action. Ali o desejo gay é apontado como uma escolha deliberada, comparável a crimes e vícios diversos. Cruzar as pernas é proibido e ir ao banheiro, somente com um fiscal presente. As aulas de masculinização não dispensam o ridículo. Em casos extremos, como de um exorcismo com espancamento, o filme se aproxima do gênero terror.

Cada interno(a) deve estudar o seu “genograma” em busca da origem do seu “mal” e preparar um “inventário moral”. É a partir desse inventário que Jared nos leva aos flashbacks de sua história pregressa: o pai pastor, a mãe perua tradicionalista, o temor quanto à suposta presença de Deus em tudo, a Bíblia como escusa para uma dissimulada crueldade.

Em O Mau Exemplo de Cameron Post, a vítima é uma menina flagrada pelo namorado enquanto trocava uns amassos com a namorada secreta no interior de um carro. Órfã de pai e mãe, Cameron (Chloë Grace Moretz) é enviada pela tia para a instituição God’s Promise, especializada na cura de uma “doença” chamada AMS (atração pelo mesmo sexo). Os métodos são semelhantes aos vistos em Boy Erased, incluindo “icebergs” para os “discípulos” investigarem a parte encoberta de seus “desvios”, exercícios físicos para redescobrir o corpo com Deus (Blessersize) e a pregação constante contra o pecado da confusão de gêneros.

Os dois filmes têm protagonistas que resistem cética e criticamente ao tratamento. Através das hesitações e auto-inquirições deles, o espectador pode aferir o absurdo do processo, as hipocrisias e o sofrimento oculto que estão por trás das supostas histórias de sucesso da “cura”. Nos dois casos, a narrativa se organiza por flashbacks, e uma tragédia dentro da clínica acelera a decisão final dos personagens centrais.

As semelhanças muito óbvias entre os dois longas terminam por aí. Os cartazes dos respectivos filmes (no alto) já indicam a principal diferença. Enquanto Boy Erased, assinado pelo ator e diretor Joel Edgerton, volta-se mais para a relação de Jared com seus pais e colegas, deixando a experiência dele próprio em segundo plano, Cameron Post segue em rumo distinto. Adaptando o romance de Emily M. Danforth, a diretora Desiree Akhavan – chamada por The Times “a mais proeminente bissexual de Hollywood” – optou por colocar a subjetividade da menina no centro de tudo. Antes de se internar, Cameron tinha uma vida sexual mais desenvolta e parecia menos atormentada que o boy erased. Sua interação com dois colegas que também não renunciaram a sua personalidade vai pavimentar a conduta da garota. Daí ser o seu filme mais luminoso e afirmativo que o outro, apesar de caminharem na mesma direção.

Entre semelhanças e diferenças, Boy e Cameron ficam um pouco aquém do que um tema tão grave poderia sugerir. De qualquer maneira, colocam em cena um dos mais graves retrocessos de moral e comportamento a que nossos tempos de neoconservadorismo religioso estão sujeitos. Vivemos o oposto dos anos 1960 e 1970, numa espécie de reação retrógrada às conquistas germinadas naquele período. Os “maus exemplos” desses filmes podem ser inspiradores para a resistência.

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