Cinema suíço com um pé em Lisboa

Além de chocolate, relógios e paisagens pastorais, a Suíça também produz filmes. O cinema suíço não é dos mais exuberantes entre os europeus, mas já forneceu nomes importantes como Claude Goretta, Daniel Schmidt e Alain Tanner. Sem esquecer que Godard é um suíço que se contrabandeou para o cinema francês.

Um pouco dessa produção pode ser vista entre 6 e 19 de maio na plataforma Belas Artes à la Carte, dentro da Mostra Volta ao Mundo: Suíça. Numa parceria com a Swiss Film Foundation, a mostra inclui oito filmes, sendo seis deles das safras de 2019 e 2020. Os outros dois são de 1969 e 1983, assinados por Alain Tanner, o diretor suíço de maior prestígio nas décadas de 1970 e 80.

A seleção inclui Desejo de Voar/Mare (2020), de Andrea Staka; O Caminho para Moscou/Moskau Einfach! (2020), de Micha Lewinsky; Espacate/Spagat (2020), de Christian Johannes Koch; Love Me Tender (2019), de Klaudia Reynicke; Deserto/My Little One (2019), de Frédéric Choffat e Julie Gilbert; Sturm (2020), de Oliver Rihs; Na Cidade Branca/Dans La Ville Blanche (1983) e O Último a Rir/Charles Mort ou Vif (1969), estes dois últimos dirigidos por Alain Tanner.

Muito influenciado pela Nouvelle Vague, Tanner se projetou com filmes naturalistas, centrados em personagens um tanto perdidos no mundo e em busca de renovação existencial. Jonas que Terá 25 Anos no Ano 2000, seu maior sucesso internacional, tratava de um grupo de pessoas no vácuo dos sonhos revolucionários de 1968.

A mostra do Belas Artes tem um óbvio destaque em Na Cidade Branca, história de um marinheiro suíço que abandona o trabalho no navio durante uma estada em Lisboa e passa a explorar a “cidade branca” com sua câmera Super 8. Paul (Bruno Ganz, esportivo e descontraído como nunca) inicia um caso amoroso com Rosa (Teresa Madruga), camareira e bar woman do pequeno hotel onde se hospeda, e narra suas aventuras em cartas enigmáticas à namorada suíça (Julia Vonderlinn). Na cidade branca, ele diz ter encontrado um “diamante negro” entre as pernas de Rosa.

Paul é fã de Zico (estamos na Copa de 1982) e não se cansa de filmar as ruelas e escadarias da Alfama. Era tempo do Super 8 como fetiche de expressão pessoal. De resto, ele aprecia o fato de não estar fazendo nada, privilégio a que a tranquila Lisboa convida o marinheiro estressado pelo ruído das máquinas do navio. Mas quando Rosa desaparece e ele é vítima de uma agressão de rua, Paul se vê em plena deriva em terra firme.

A impressão de deriva nasce também da forma como o filme se constrói diante de nós, em boa parte pela improvisação de Bruno Ganz nas cenas em que está sozinho ou interage com populares. A escrita de Alain Tanner é cheia de “frases cênicas” que não se completam, numa espécie de flânerie dramática.

Em certa medida, Tanner antecipa o que Wim Wenders faria 11 anos depois em O Céu de Lisboa. A cidade, o estrangeiro, o cinema, o amor com uma portuguesa… Mas se os personagens de Wenders eram um diretor e um técnico de som profissionais, o de Tanner é um amador em muitos sentidos. Paul é alguém que se desobriga de tudo e ensaia o seu próprio desaparecimento. De certa forma, ele também prenuncia o anjo flâneur de Asas do Desejo. Tais links entre Tanner e Wenders são uma descoberta proporcionada pela revisão desse filme.

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