Estação 35 anos, 180 filmes

Megamostra de cinema brasileiro incrementa atuação virtual do Circuito Estação e exibe, entre muitos outros, dois novos filmes sobre a falta de ar.

O circuito Estação tem sobrevivido com dificuldade às vicissitudes da pandemia. No abre-e-fecha de cinemas e sem uma plataforma própria de streaming, a cadeia mais cult do Rio de Janeiro tem promovido lives e agora realiza seu primeiro grande evento no universo digital. O Festival Estação Virtual – 35 Anos de Cinema Brasileiro quer fazer um balanço de três décadas e meia de atividades que marcaram a cinefilia carioca. A produção é conjunta do Estação e da Cavídeo.

De 6 a 31 de maio, cerca de 180 filmes, entre curtas, médias e longas, passarão gratuitamente pelo canal do Circuito Estação Net no Vimeo. Na seleção estão desde Eu Sei que Vou te Amar, de Arnaldo Jabor, filme que marcou a abertura do então Estação Botafogo, em 1985, a produções recentes como Bixa Travesty, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Clássicos como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, e Ilha das Flores, de Jorge Furtado, figuram na programação. A partir do dia 6, serão liberados 80 filmes para a primeira semana do festival. Outros 50 serão liberados na segunda semana, e mais 50 na terceira semana.

Haverá também uma série de pré-estreias de filmes de Silvio Tendler, Walter Carvalho, Jorge Bodanzky, Renato Barbieri, Belisário Franca e Jefferson De, entre outros. A curadoria foi assinada por Adriana Rattes, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Cavi Borges, Fabrício Duque, Liliam Hargreaves e Luiz Eduardo Pereira de Souza.

Quatro debates enfocarão a história do Estação e as trajetórias do cinema brasileiro de ficção, documentários e curtas nesses 35 anos. Já na quarta-feira, dia 5, às 18h, um debate sobre a trajetória do Estação e apresentação da mostra vai reunir Adriana Rattes, Ilda Santiago, Carlos Diegues e João Luiz Vieira, mediados por Cavi Borges. Além disso, alguns filmes serão precedidos de uma introdução por críticos convidados. Confira a programação completa no site do Grupo Estação.

Entre os títulos em pré-estreia na primeira semana, me reporto aqui a dois filmes que tematizam a relação das pessoas com a Covid 19 e o isolamento social.

A falta de ar em filme

Que eu saiba, o microcurta Ar, de Beth Formaginni, é o único filme brasileiro feito por paciente do coronavírus dentro de uma UTI. Em sua estada num hospital do Rio, Beth gravou com o celular alguns flashes de sua rotina, contrapostos com imagens do terraço de sua casa. O som de respiração ofegante e dos equipamentos médicos, somados à câmera subjetiva, transmitem a claustrofobia lustrosa da UTI e a impotência em que se sente a pessoa internada.

Mas Beth faz desse pequeno filme um elogio da cura, tal é o seu sorriso ao voltar para casa, com suas plantas e suas referências. Ar, na verdade, não é somente o elemento que nos permite estar vivos, mas também aquilo que nos faz sentir realmente vivos: a criação, a comunicação e o pertencimento a um território.

Tudo isso vem à baila também no excepcional Me Cuidem-se! À medida que olhamos retrospectivamente para esse projeto, maior parece ser sua importância como instantâneo e reflexão sobre as condições criadas pela pandemia da Covid 19. A versão de longa metragem nos chega depois do lançamento de seis parciais entre abril e julho de 2020. Já ali, delineava-se um pioneirismo quanto ao “filme de quarentena” no Brasil. Pessoas de distintas classes sociais do Rio de Janeiro, mas com algum vínculo com o campo da cultura, se dispunham a filmar-se no seu cotidiano, com seus próprios celulares, e enviar aos diretores Bebeto Abrantes e Cavi Borges, sem que houvesse qualquer orientação de conteúdo ou contato presencial.

Apesar da necessária condensação, o longa dá conta das muitas questões envolvidas nesse exemplar filme-processo. No início, ainda em março de 2020, vemos os personagens se apresentarem e falarem de sua perplexidade com a situação, mas ainda na expectativa de que o isolamento social fosse uma circunstância passageira. Aos poucos, num espelho do que acontecia com cada um de nós espectadores, verificamos como ia se alterando a percepção do tempo e das rotinas, assim como ia mudando a aparência das pessoas (cabelos, barbas, olhares).

Havia aqueles que escolhiam gravar considerações sobre si mesmos, como o artista plástico Arthur e a produtora cultural Luana. E havia o aprendiz de cineasta Amaury lançando para fora seu olhar de documentarista, registrando o dia a dia do Morro Santa Marta e arredores. Já a coreógrafa Regina e a artista e profissional de saúde Aline tentavam um balanço entre a consciência de si e do mundo. A atriz Patrícia, por sua vez, incorporava o medo, a angústia e a falta de ar individual e política em ações corporais silenciosas nos limites do seu banheiro. A respiração de Patrícia, por sinal, antecipava o desenho sonoro do curta Ar, de Beth Formaggini.

Enquanto isso, lá fora, a voz do abominável presidente disputava os ares com o som dos panelaços.

O processo de auto-observação dos personagens não esteve imune a crises. Dois deles saíram do filme a meio caminho, sendo que um sequer entrou no longa. A chegada da documentarista e montadora Raquel trouxe um sopro de leveza a um clima geralmente pesado. Três se contaminaram com o vírus durante o período das filmagens.

Em meio ao fluxo de pensamentos e micro-ações, abriam-se frestas para as veleidades artísticas de cada um: poemas, desenhos, fotografias, performances. “A arte e a literatura me salvaram”, diz mais ou menos assim o simpático Amaury, que se via não como um personagem, mas como um co-autor do filme. Aliás, as dicotomias pessoa-personagem e personagem-autor são um dos temas das análises que eles foram convidados a fazer em conversas com os diretores pelo Zoom.

Essas dobras autorreflexivas no Zoom, gravadas especialmente para o longa, agregam ao filme um teor de cinema-verdade. Um dos temas abordados nessas conversas é o salto compulsório dos contatos físicos para o mundo virtual, talvez a principal mudança de paradigma provocado pela pandemia nas relações sociais. Cavi e Bebeto adicionaram também alguns diálogos entre eles pelo Whatsapp, revelando um pouco mais do processo de condução desse experimento singular. Num dado momento, ouvimos os dois combinarem até mesmo a “fabricação” de mensagens para melhor transmitir o que norteava seu trabalho de direção, uma vez que era preciso, ao mesmo tempo, respeitar o desejo dos participantes e provocá-los a não se acomodarem ou esmorecerem.

O que mostrar? O que falar? Com quem falavam – consigo mesmos ou com os eventuais espectadores? Em que medida o isolamento se quebrava nessa abertura para um público incerto e desconhecido? Quando, afinal, terminaria esse filme? Me Cuidem-se! deixa essas perguntas no ar, mas oferece uma sensível crônica coletiva do nosso estado de espírito numa forma de vida anômala que parece não ter prazo para terminar.

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