Festival do Rio: “O Dia da Posse”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Allan Ribeiro faz filmes no limite entre a expressão de intimidades e o interesse cinematográfico público. Assim são os longas Esse Amor que nos Consome e Mais do que eu Possa me Reconhecer, cujo apelo depende, em maior ou menor grau, da empatia que possa surgir entre o espectador e as vivências mais comuns dos personagens. Estes são sempre artistas (profissionais ou amadores) vistos no recuo de suas domesticidades.

O mesmo se dá em O Dia da Posse, com um fator adicional: a pandemia acentua esse recuo para o doméstico. Allan e seu amigo Brendo Washington estão encerrados num apartamento, tendo como única relação com o mundo exterior o voyeurismo para as janelas vizinhas e os dispositivos de comunicação virtual. Há um carinho evidente, mas discreto entre os dois, enquanto cuidam da casa, preparam comidas e gravam vídeos de Brendo para as redes sociais.

O baiano Brendo, 24 anos, imigrante de origem muito humilde, é um típico aspirante, que brinca de sonhar com muitas coisas. Entre elas, participar do Big Brother, ser um digital influencer e, se a democracia permitir, eleger-se presidente do Brasil em 2030. Para cada um desses desejos ele tem um discurso pronto, que expõe diante da câmera. “Esse filme é um retrato fiel dos anseios da juventude brasileira”, diz sobre O Dia da Posse com um misto de orgulho e pilhéria. Na real, porém, ele é um estudante de Medicina e Direito com simpatia e verve de comunicador.

Allan, por sua vez, atua como catalisador da argúcia do amigo mais jovem, colocada em benefício do filme. O diretor conversa também com sua família por videoconferência e deixa transparecer uma harmonia e um afeto inquebráveis. Nesse sentido, O Dia da Posse faz uma singela afirmação de saúde privada em meio à crise sanitária e política por que passa o país no seu plano público.

Resgatar esses valores é um trabalho de filigrana para quem assiste a esse filme de dramaturgia mínima. Quem se apegar apenas á superfície verá somente uma sucessão de conversas com a câmera ligada.


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