O velho e os novos

Sobre os documentários MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER e O GRANDE DIA 

Depois do belíssimo “Esse Amor que nos Consome”, Allan Ribeiro confirma a sensibilidade para o documentário intimista com MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER, que estreou hoje em sessão única diária às 18h10 no Estação Net Rio. O filme é bastante singelo na realização: registra o pintor e ilustrador Darel Valença Lins, 90 anos, sozinho em sua casa, ocupado com seus quadros e com as experiências de videoarte doméstica que o vêm fascinando ultimamente.

Para quem não conhecia esse premiado artista um tanto recluso, é um prazer descobrir aos poucos um amante de Rembrandt e Bill Viola. E também uma pessoa de passado efusivo e que hoje, depois de pelo menos uma tragédia familiar, vive sozinho numa enorme casa no Rio. Não há um interesse vampiresco por detalhes biográficos, mas somente um desejo de estar próximo e captar a essência de uma personalidade.

Allan mescla suas filmagens com os vídeos de Darel, criando uma interessante complementação entre o homem filmado por terceiros e o homem que se filma obsessivamente, em busca de imagens da solidão. Uma trilha musical estrelada por Ligeti, Messiaen e Saint-Saëns, entre outros, potencializa as imagens e imprime uma sonoridade evocativa dos filmes surrealistas e dadaístas dos anos 1920, origem de todo o cinema experimental. Essas discretas operações fazem com que a singeleza do processo dê margem a um resultado cativante.



O GRANDE DIA contém um dos argumentos documentais mais triviais dos últimos tempos: crianças e jovens passando por provas decisivas para seu futuro profissional. Em lugares os mais distintos do planeta, eles têm em comum o empenho e a simpatia. Em Uganda, Tom estuda para se formar como guarda florestal. Na capital da Mongólia, a pequena Deegii treina para uma prova de contorcionismo. A indiana Nidhi se prepara para o exame de admissão à Escola Politécnica. E o cubano Albert pratica o boxe para sua primeira grande prova no ringue.
Dirigido pelo francês Pascal Plisson, é um documentário encenado, categoria delicada por se situar a meio caminho entre o registro do real e sua dramatização. Nesse caso, o capricho formal afasta quase completamente a possibilidade do acaso. Tudo é cuidadosamente roteirizado, filmado e representado pelos personagens e seus familiares, que estão a reconstituir fatos e conversas, em lugar de vivê-los diante da câmera. Até as provas da contorcionista e do guarda florestal passam a suspeita de serem encenadas para o filme.
Até aí, nada demais desde Robert Flaherty. Resta saber se essa ficcionalização da vida funciona, seja como “documentário” ou como ficção assumida. Em O GRANDE DIA, certamente não funciona. O que vemos é uma versão sanitizada de conflitos e reais dificuldades, com famílias de diferentes conformações mas todas entusiasticamente cúmplices dos sonhos de seus filhos. O típico é buscado e rebuscado, em locações como o Malecón de Havana, a beira do Ganges em Varanasi, reservas suntuosas em Uganda e interiores coloridíssimos em Ulan Bator. A trilha sonora carrega nas teclas de um sentimentalismo paternalizante. Com tudo isso, o filme poderia ser inspirador se não fosse tão fake e pré-fabricado.

 

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