Lula, o mito do Brasil

Lula, o Filho do Brasil entrou ontem em cartaz com três entraves a sua vocação de grande sucesso de bilheteria. O primeiro diz respeito às resistências políticas de quem acusa o filme e seu personagem de oportunismo eleitoreiro. Exagero, uma vez que é cedo demais para surtir efeito em novembro e Lula não concorre a um terceiro mandato. De qualquer forma, é difícil lidar com um filme que narra positivamente a história de um presidente ainda no poder.  

O segundo entrave é o tempo decorrido desde que o filme ganhou seu pique de exposição, há mais de um mês. Festival de Brasília, pré-estreias, exibição para Lula, muitas opiniões na imprensa – e depois disso a sensação de que todo mundo já “viu”, mesmo quem ainda não assistiu.

Essa antecipação, de certa maneira, acabou servindo para cumprir um calendário que agora não poderia ser cumprido, com o diretor Fábio Barreto em coma induzido após o grave acidente que sofreu. O lançamento ocorre, portanto, com alguma reserva, sob o signo da preocupação com a saúde de Fábio. Esse, o terceiro entrave. 

 

Os críticos da linha de frente já se manifestaram sobre o filme. Dividiram-se entre elogios à qualidade técnica e artística, e restrições ao roteiro episódico e elegíaco. Afora as implicâncias políticas de praxe. Há mesmo quem opine que o presidente deveria ter intervindo para adiar a estreia do filme para depois das eleições! De minha parte, gosto bastante desse trabalho da família Barreto (e assim me refiro de uma maneira geral ao projeto, produção e realização). A fórmula do melodrama épico é assumida e bem utilizada, com um resultado que não se via em filmes de Fábio Barreto desde O Quatrilho. Gosto particularmente do Lula galã romântico operário, ao som de Tim Maia e breguices sertanejas. A coragem de representar esses momentos é uma das maiores qualidades de Lula, o Filho do Brasil.   

Dito isso, deixo a apreciação crítica detalhada por conta de outros colegas e passo a um elemento que chamou minha atenção. No filme, Lula é visto apenas nos seus anos de formação, assim como o Che de Diários de Motocicleta e a estilista de Coco Antes de Chanel. Nesse período em que o menino pobre de Garanhuns se transforma no líder sindical emergente, a mudança se faz através de um coquetel romanesco onde entram determinação, sorte e predestinação.

A determinação, Lula aprende em casa, com Dona Lindu. A teima, a santa insistência, a espera paciente são as forças motrizes telúricas do jovem Luiz Inácio, gravadas no filme com forja fordiana (ecos de Rastros de Ódio, As Vinhas da Ira). Já a sorte é que faz com que Lula tenha encontros e presencie cenas que vão alterar os rumos de sua vida. São os casos da influência inicial do irmão, do aprendizado com o presidente anterior do sindicato dos metalúrgicos e da troca de agressões na greve de 1962, que o teria vacinado contra a violência.

Por fim, o filme é pontuado por indicações teleológicas, ou seja, sinais de que Lula estava predestinado a ser quem hoje é. Já no início, Glória Pires capricha no sotaque pernambucano ao levantar o bebê nos braços e batizar: “Você vai se chamar Luiz Inácio”. Os sinais se espalham. A professora pressente que o menino Lula pode vir a ser “alguém na vida”. O garoto acena para os trabalhadores na estrada como se dissesse “esperem por mim no futuro”. O velho operário (Antonio Pitanga, herói brasileiro do Cinema Novo) lança ao jovem Lula um olhar de quem antevê o valor do cabra.                    

Mais do que os pormenores da biografia, são esses insights em forma de prognóstico que abrem um flanco para a acusação de que o filme contribui para mitificar o personagem. Mas, pensando bem, uma coisa é certa: Lula não precisou desse filme para se converter em mito da política mundial. O filme, sim, depende das paixões em torno de Lula para fazer ou não o sucesso esperado.                     

4 comentários sobre “Lula, o mito do Brasil

  1. Carlinhos,

    Assisti ontem aqui em Florianópolis (sala de shopping, infelizmente pouco popular), com ocupação acima de 70% de espectadores, ao filme do Fabio e hoje, leio seus ótimos e precisos comentários, com os quais concordo plenamente.
    Sinceramente, não esperava tanto embora todos nós conhecemos o final da história e a direção corajosa do Fabio foi determinante
    Espero que o Fabio se restabeleça logo e é importante que seu filme seja visto por todos brasileiros.

    2010 com felicidade.

    forte abraço,
    Cesar

    • É isso aí, Cesar. Precisamos chamar atenção para as qualidades do filme para fazer frente às militâncias oposicionista e elitista (que nem sempre coincidem). Abraço!

  2. Carlinhos, como disse ontem, te li, atestei e concordei. Eu adoro o filme. Considero de grande importância ao país e tem momentos de arrepiar. Fabio está maduro e a obra é coletiva, compartilhada. Cinematograficamente tem muita beleza técnica, de câmera, de roteiro… E a música do Morelenbaum? É de despertar lágrimas, precisa. Beijos a você.

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