Vencedores do É Tudo Verdade

Terra Deu, Terra Come

O júri formado por Andréa Pasquini, Carlos Eduardo Lourenço Jorge e Mariza Leão acertou em cheio ao premiar na competição nacional o enredante Terra Deu, Terra Come (foto acima), de Rodrigo Siqueira. Rodado num antigo quilombo de Minas, o longa acompanha as pompas fúnebres de um certo João Batista, comandadas pelo velho e historioso Pedro de Alexina. Enquanto conta seus causos e protagoniza folguedos, Pedro (e o filme) vão deslocando nossa crença e passando, de mala e cuia, da realidade para o puro mito. De fato, é uma proposta nova na maneira de apresentar costumes e crenças muito antigas, mas ainda válidas no seu contexto.

O júri poderia ter distinguido um filme como Os Representantes, de Felipe Lacerda, também criativo na maneira como articula sua observação do fazer político. Mas a premiação de Terra Deu, Terra Come recompensa o contraste entre a modéstia de meios e a invenção de uma estratégia narrativa. Pena que o filme, parco em luz, tenha saído prejudicado das exibições digitais no Rio.

O mesmo não posso dizer do curta nacional vencedor. Sei que Querida Mãe, de Patrícia Cornils, é o queridinho de Patrícia Rebello, membro do comitê de seleção, mas a mim o filme pareceu tosco como resgate afetivo da memória da mãe da diretora, que ela não conheceu. Através das cartas que a mãe enviou à avó, Patrícia Cornils tenta se aproximar da figura materna. Mas as imagens são descuidadas (não exatamente como produções da subjetividade) e o roteiro, a meu ver, divaga sem rumo por cenários e recursos desconexos. Meu curta brasileiro preferido foi As Aventuras de Paulo Bruscky, doc de Gabriel Mascaro feito inteiramente em animação de Second Life. Inventividade aos borbotões.

Na competição internacional, não há muito o que discutir. A reverência à majestade de Frederick Wiseman pode ter ajudado na decisão de premiar La Danse, um tour de force de observação das rotinas do Balé da Ópera de Paris. Dos filmes que vi, Budrus, de Julia Bacha, certamente mereceria uma escolha pelo júri composto por Bill Nichols, Marek Hovorka e Yoav Shamir. Mas eles preferiram repartir o prêmio entre La Danse e O Homem Mais Perigoso da América, de Rick Goldsmith e Judith Ehrlich. Pretendo ver esse último hoje, domingo, no CCBB, se uma pequena multidão não chegar antes de mim.

Uma legítima obra-prima levou o prêmio de melhor curta internacional: A Escuridão do Dia, de Jay Rosenblatt. Justapondo imagens de filmes descartados de escolas americanas na década de 1980, mais a leitura de anotações de um diário, notícias e cartas de suicidas, o filme faz uma magnetizante meditação sobre a morte voluntária. Esse prêmio ecoou o tema da Conferência Internacional deste ano, que foram os filmes de arquivo. Rosenblatt é um gênio nesse métier, como prova também o seu Human Remains, aqueles impressionantes retratos “humanos” dos maiores ditadores da História.

Veja a lista completa de prêmios e menções no site do festival

Update:  O Homem Mais Perigoso da América me pareceu mais uma aula de bastidores da História que um feito cinematográfico digno de premiação. O filme levanta muitas informações, imagens de arquivo e personagens na teia que fez Daniel Ellsberg passar de gavião a pombo, numa súbita e um tanto inconvincente tomada de consciência contra a guerra do Vietnã. Mas confesso que o dossiê me cansou, levando-me por veredas do governo americano cujo conhecimento não me acrescentou grande coisa. Eles mentem sempre, a gente sabe. O problema é saber quem mente mais e melhor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s