É Tudo Verdade – resenhas e notas


Químio + Seis Semanas

Extremos da vida. Nesses dois filmes se percebe um modelo muito comum em docs da Polônia, talvez fruto da herança de Kieslowski nesse campo. São observações intimistas de temas humanos extremos, realizadas com recorte rigoroso e linguagem sóbria. O média Químio, de Pawel Lozinski, atua como um ouvinte próximo das conversas entre pacientes de um centro de quimioterapia em Varsóvia. O repertório de medos, consolações, planos de vida e de morte de pessoas de idades variadas forma um conjunto depressivo, apesar de pitadas de um humor melancólico. Não é um filme sobre a superação da doença, mas sobre sobre seus efeitos na paisagem dos rostos e dos pensamentos. Já o curta Seis Semanas, do ator e documentarista Marcin Janos Krawczyk, enfoca outra extremidade da vida, mas com não menos carga dramática. Num orfanato, bebês esperam adoção depois que suas mães renunciaram ao pátrio poder. Kracwzyk acompanha a decisão de uma mãe, a carta que ela deve escrever para o filho ler somente aos 18 anos, assim como a expectativa de um casal na hora de receber seu bebê adotivo. Com sensibilidade e muita capacidade de síntese, o curta condensa em poucas imagens uma grande variedade de emoções e um instante capaz de reverberar por vidas afora.

– Químio: CCBB, sábado às 17h30 e domingo às 19h30

– Seis Semanas: CCBB, sábado às 12h

 

Quando o Dragão Engoliu o Sol

Caminhos do Tibete. Não se deixe impressionar mal pelos primeiros minutos, quando o estilo remete aos docs encenados do National Geographic Channel e a retórica sugere um puro libelo pró-Tibete. À medida que avança na incorporação de personagens e na abertura do leque temático, o filme de Dirk Simon penetra na complexa rede de estratégias e ideologias em que se dá a resisitência tibetana ao acachapante domínio chinês. A discussão entre a não-violência e o ativismo de guerrilha, a análise do temperamento nacional tibetano, as contradições de manter uma resistência no exílio que tende a se acomodar num certo conforto – são muitas as questões levantadas, sempre a partir de depoimentos pessoais. Em plena euforia das Olimpíadas de Pequim, em 2008, o Dalai Lama, o Primeiro-Ministro e membros do congresso no exílio, um jovem herdeiro monárquico e diversos ativistas expõem seus pontos-de-vista e, sobretudo, suas hesitações diante de um projeto Davi x Golias. As imagens oferecem impacto e apelo constantes, com um arsenal de ilustrações metafóricas, edição vibrante e música caudalosa (incluindo Philip Glass, Björk e Damien Rice). Um trabalho que leva ao cinema a obsessiva comunicação da TV. 

Site do filme 

– Instituto Moreira Salles, sexta às 20h

 

“A ideia nunca foi fazer um doc lato sensu (não sou um documentarista lato sensu) sobre a Guerra do Contestado”. Sylvio Back responde à minha resenha de O Contestado – Restos Mortais, publicada lá em baixo, no pé desse long-post. Leia seu texto na íntegra

 

A mesa-redonda sobre “Documentário Hoje” vai reunir sexta-feira, às 17 horas, no CCBB-Rio, os diretores Pawel Lozinski (Químio), Dirk Simon (Quando o Dragão Engoliu o Sol ) e Marcin Janos Krawczyk (Seis Semanas). Eu serei o moderador.

 

Uma Noite em 67

Cultura em transformação. Uma ideia simples e bem realizada. Assim é o doc de Renato Terra e Ricardo Calil sobre a finalíssima do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. A mera justaposição dos clipes das apresentações com os depoimentos atuais de seus protagonistas traz de volta, sob novas luzes, o clima de apoteose e ansiedade política (nas entrelinhas) que marcou aquele momento de catarse em plena ditadura. O grande achado é tomar o festival como vitrine dos embates que então se davam entre as várias tribos da música brasileira: o protesto, a jovem guarda, o rock, a MPB nacionalista. O velho e o novo se batendo perante uma plateia ávida por se manifestar e dizer-se viva. Um programa de TV? Um ringue de luta? Uma festinha doméstica de fim de ano? Ou um microcosmo da cultura em transformação?  O festival foi tudo isso e muito mais. O filme o rememora mediante reflexões reveladoras, contradições expostas e informações inéditas de bastidores. Não precisa mais que isso para se ter um bom documentário.  

Site do filme 

– Unibanco Arteplex, quinta às 19h

 

Os Representantes

Política à moda amazônica. Durante uma grave seca em 2005, e em meio ao plebiscito do desarmamento, Felipe Lacerda e o câmera Alberto Belezzia se mandaram para a Amazônia a fim de documentar as operações de emergência comandadas pelo Exército. Ao mesmo tempo, acompanharam por alguns dias as atividades do vereador Quinho e do governador Eduardo Braga por pequenos municípios da região. Uma interessante narrativa paralela mostra como as cestas básicas e medicamentos enviados pelo governo federal se transformam em moeda eleitoral pelos políticos junto às comunidades. Numa paisagem em que as leis são como cipós flexíveis, a política se faz a nível pessoal, num misto de vaidade e interesses miúdos. Um vereador é alguém que conserta canos, corta cabelo de graça, consegue documentos e faz pequenas doações. Os chamados representantes do povo perpetuam práticas antigas de assistencialismo, disfarçadas sob siglas paternalistas. Lacerda, autor da série Em Cuba, co-autor de Ônibus 174 e co-editor de Segredos da Tribo, em mais esse belo trabalho confirma sua atenção ao detalhe e a capacidade de retratar o macro através do micro.

– Unibanco Arteplex, quinta às 17h e 21h

 

Roubados (Stolen)

O filme que ninguém queria. Poucos docs têm uma história tão atribulada quanto Stolen. Enquanto faziam um filme sobre o programa de recomposição familiar em um acampamento de refugiados na Argélia, os diretores Violeta Ayala e Dan Fallshaw descobriram a existência de famílias negras escravas com a paradoxal tolerância da Frente de Libertação Polisario. Negando-se a aceitar a escravidão como um “problema cultural” (palavras de uma agente da ONU), os cineastas passaram a coletar relatos contundentes de comércio humano, filhos roubados e tirania sexual. Foi o bastante para eles virarem pivôs de um affair diplomático envolvendo a FLP e o Marrocos, que disputam o poder na região. O filme, então, se transforma num thriller através de cinco países, com direito a fitas escondidas no deserto ou roubadas em hotéis, espiões, informantes, filmagens clandestinas e risco de morte. No limite do rocambolesco, Violeta e Dan dramatizam a si mesmos e precisam enfrentar a oposição de seus próprios personagens, inclusive na noite de estreia. Caso raro em que o processo de filmagem luta por sobreviver em relação até aos seus protagonistas. No final, restam a causa e a solidão dos cineastas.   

Site do filme  http://www.thetruthaboutstolen.com/

– CCBB, quinta às 17h30 e sexta às 15h30

 

O Jogador

A solidão do risco. Para mim foi muito fácil compreender os motivos que levaram o holandês John Appel a fazer este filme. Também tive um pai jogador inveterado, que colocou em risco a própria vida e suas várias famílias. Mas The Player não depende da identificação para comover a plateia. Da história do seu pai, Appel parte para investigar as tensões e os prazeres de três jogadores/apostadores que pautam seu dia-a-dia na expectativa de se safar do perigo. Um deles está na prisão por fraudes comerciais. Outro sublima as derrotas pelo humor (“estraguei minha vida por causa de cavalos lentos e mulheres rápidas”). O terceiro comenta as sensações insuperáveis de estar dentro de um cassino. Como saldo comum, a solidão e uma balança eternamente pendendo entre a euforia e a melancolia. O filme é comedido e climático, tirando partido de uma bonita fotografia e de uma observação cuidadosa que ora lembra Baía dos Anjos, de Louis Malle, ora o Bresson de Pickpocket.

– CCBB, quinta às 19h30 e sábado às 16h

 

La Danse – O Balé da Ópera de Paris

O corpo e a casa. O mestre Frederick Wiseman talvez nunca tenha sido tão “artístico” quanto neste doc. A natureza do seu objeto o levou a um capricho inédito nas tomadas, na edição que cria “ecos” visuais para a música e até no uso de efeitos como a distorção de corpos através de espelhos. Não há em La Danse aquele típico padrão narrativo de filmes sobre dança, que é acompanhar a preparação de um espetáculo. Temos fragmentos de ensaios, exercícios individuais e apresentações de sete espetáculos, mas sem uma ordem que procure recriar o fluxo de criação pelo modelo do making of. Em vez disso, é como se passeássemos livremente pelos espaços e tempos do corpo de balé e da escola de dança da “Operrá”. A busca do movimento perfeito é registrada no contato minucioso entre bailarinos, coreógrafos e ensaiadores. Nesse sentido, o áudio das instruções tem uma importância reveladora. Como sempre em Wiseman, é um filme sobre a instituição, daí as passagens pela sala da diretora artística, ateliers, camarins, tinturaria, restaurante. O prédio da Ópera de Paris é tão personagem quanto as estrelas da sapatilha. Assim ficamos sabendo, por exemplo, que o Palais Garnier tem peixinhos nos esgotos e uma criação de abelhas no telhado. Voilá!     

– CCBB, quarta às 17h30 e sexta às 18h30 

 

No Meio do Rio, entre as Árvores

Ecologia e tecnologia. Há vários anos Jorge Bodanzky singra as águas do norte do país com seu barco Navegar Amazônia, verdadeiro centro cultural flutuante. Ali documenta a vida das populações ribeirinhas e as inicia nos misteres da produção audiovisual e da internet. Tudo desagua em vídeos no site da TV Navegar. Seu mais novo longa-metragem, que pré-estreia no É Tudo Verdade, serve como amostra desse trabalho de cultivo persistente nos confins do Alto Solimões. No Meio do Rio, entre as Árvores tem bons momentos das oficinas populares de vídeo, embora incorpore pouco dos seus resultados. O forte mesmo é a visão abrangente de como Bodanzky e sua equipe registram o dia-a-dia das comunidades, suas diversões, questões de saúde, educação e controle ambiental. Outro destaque são as belíssimas imagens da natureza amazônica, cenário que o cineasta conhece como a palma da mão. Longe do trabalho mais autoral e investigativo dos tempos de Iracema e Terceiro Milênio, o Bodanzky que se vê aqui é alguém empenhado no bom convívio entre ecologia e tecnologia. 

– Unibanco Arteplex, quarta às 19h; Ponto Cine, quinta às 11h; Cine Santa, sexta às 17h

 

Terra Deu, Terra Come

A morte lúdica. No Quartel do Indaiá, quilombo do interior de Minas, o diabo anda à espreita e rouba os cadáveres de quem fez com ele um “contrato”. O velho Pedro, de 82 anos, comanda o velório de um homem muito mais idoso do que ele. Entoa vissungos (cantos fúnebres africanos) e dá pinga para o morto seguir viagem em paz. Enquanto não chega a hora do enterro, o simpaticíssimo Pedro conta histórias de pelejas com o “Sujo”, de garimpos, de tesouros escondidos, de um crime familiar. A conversa gostosa, que lembra Guimarães Rosa, por vezes dá lugar a uma encenação em que as pessoas brincam com os mitos e com a câmera. A morte, então, vira coisa lúdica, assunto a ser tratado com máscara e troncos de bananeira. O diretor Rodrigo Siqueira encontrou uma forma simples e eficaz de revelar toda uma mitologia e reproduzir sua ambiguidade fundamental. A mistura de realidade e ficção não é uma questão de discernimento, mas uma maneira legítima de confrontar o mistério, como fica cristalino no riso constante e contagiante do velho Pedro.         

Site do filme

– Unibanco Arteplex, quarta às 21h e quinta às 15h

 

Arquitetos do Poder

Poder e limites da mídia. No início de uma campanha presidencial que promete ser encarniçada, é bom ver este doc de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé a respeito do poder e dos limites da comunicação sobre os resultados de eleições. O filme tenta fazer uma reflexão acerca das relações da imprensa e dos homens de marketing com as candidaturas presidenciais desde a época de Getúlio e até a reeleição de Lula em 2006. A falta de uma maior pesquisa histórica reduz bastante a objetividade da análise no período mais antigo. Só quando as campanhas se midiatizam e o material de arquivo fica volumoso, sobretudo a partir dos anos 1990, é que Arquitetos do Poder se mostra mais efetivo. De maneira geral, somos reapresentados aos fatos mais conhecidos das campanhas – somente as presidenciais –, sem o conteúdo revelador que se espera de um filme sobre o tema. Mesmo assim, mais se abrindo para a crônica política que se aprofundando nos misteres do marketing eleitoral, o filme tem a virtude de rever a História por um ângulo específico. Para outubro próximo, a grande mídia brasileira já fez sua escolha. Mas, como outras ocasiões já indicaram, a convicção dos (e)leitores pode corrigir a tempo esse rumo.

– Unibanco Arteplex, hoje (terça) 21h e quarta 15h

 

Capitalismo: Uma História de Amor

Libelo quase suicida. Michael Moore resolveu ir direto ao ponto: o capitalismo é o Mal e precisa ser erradicado em troca de democracia. Para defender sua proposta, convocou congressistas, padres, vítimas de despejo, operários em greve, pilotos mal pagos,  jovens endividados até o pescoço. Convocou, principalmente, sua própria expertise em reunir histórias exemplares de como os EUA pós-Reagan transformaram o sonho de Roosevelt – de um capitalismo humano – no pesadelo financeiro da era Bush. De vez em quando, temos a sensação de estar assistindo a um filme de esquerda latino-americano. Apesar do teor didático, o roteiro apresenta trechos bastante áridos para quem não domina os meandros da grande operação que aparelhou o estado americano com os financistas de Wall Street. Daí, talvez, o relativo insucesso do filme no mercado. Uma certa verborragia também atinge Capitalismo, que demonstra certo cansaço nas típicas performances públicas do diretor. Ainda assim, o engajamento sincero produz um libelo corajoso, quase suicida mesmo, ao afrontar sem meias-palavras um dos dogmas da cultura política americana. Este é também o filme em que Moore mais recorre a sua própria biografia desde Roger e Eu. A visão da vitória de Obama como uma semente de revolução popular pode parecer apressada e fruto do pensamento desejoso, mas exprime, sem duvida, o sentimento predominante no momento histórico em que o filme foi realizado.        

Site do filme  

– Unibanco Arteplex, terça às 19h; Cinemark Downtown, quinta às 19h30

 

Pais da Praça de Maio – 10 Caminhos Possíveis

O lugar do pai. Muitos filmes foram feitos sobre as Madres da Plaza de Mayo, ícones da resistência e da cobrança aos algozes da ditadura argentina. Joaquín Daglio resolveu abordar, talvez pela primeira vez, a atuação dos pais dos desaparecidos e sua cota de dor. O paralelo se faz inevitável. Enquanto las madres formam uma estampa épica de enfrentamento e ostensividade, los 10 padres reunidos por Daglio suscitam uma imagem mais passiva, marcada pela cautela, a impotência e o fracasso. Razões não faltam para as atitudes que cada um tomou, e por vezes os depoimentos assumem um tom de mea culpa. Há o pai que foi obrigado, de arma na cabeça, a levar os militares até o esconderijo do filho; há o que culpa a sua própria militância pelo destino do rapaz e o que se orgulha de tê-la transmitido; há o que sublima a tragédia na literatura e o que se recorda de ter tentado mandar o filho a salvo para o Brasil em 1979. Numa linha obsessiva muito argentina, o diretor parece mais interessado em investigar o luto desses senhores do que as causas da relativa omissão paterna no episódio. A última imagem do filme é muito forte, propiciando uma rara oportunidade de agrupamento aos pais, coadjuvantes da célebre união das mães.

Site do filme 

– CCBB, terça às 17h30 e quarta às 13h30

 

Fora de Campo

Bola de fome. O pequeno mundo dos jogadores sem sucesso, fama ou contratos milionários é o objeto deste DOCTV de Brasília. Um deles é o carismático Maninho, craque escondido na segunda divisão do campeonato brasiliense, onde não tem sequer carteira assinada, e paga as contas na ponta do lápis. Os demais são ex-jogadores que atingiram a maturidade sem grandes sonhos, ganhando a vida como segurança, enfermeiro, pequeno comerciante ou árbitro de várzea. O diretor Adirley Queirós capta detalhes de um futebol pobre, que representa, segundo diz o filme, mais de 90% da realidade do esporte no Brasil. Ao contrário de Futebol, o famoso tríptico de João Moreira Salles e Arthur Fontes, aqui não se trata de estrelas no ocaso, mas de candidatos que nunca chegaram propriamente lá. Afora isso, não há grandes revelações a esperar, a não ser a intensidade dramática do olhar de Maninho ao se confrontar com seus limites. 

– Unibanco Arteplex, segunda às 21h e terça às 17h        

  

Programa Casé: o que a Gente não Inventa, não Existe

A nossa era do rádio. O filme de Estevão Ciavatta tem que ser entendido no contexto dos docs-família que vicejam atualmente no Brasil. São quase extensões do filme doméstico, tal é a participação dos familiares e tal é o coquetel de simpatia e admiração que move o projeto. Nesses limites, onde não cabem a contradição nem a ambivalência, Programa Casé é um programa bacana. A biografia de Ademar Casé, o patriarca do clã, self made man versão brazuca, enseja uma visita gostosa aos primórdios do rádio no Brasil. Nesse campo, Ademar jogou nas onze: aprendeu a construir rádios-galena, foi vendedor de rádios a domicílio e acabou por se tornar o primeiro grande produtor e formatador do rádio brasileiro. O doc faz um esforço considerável para exumar velhas joias visuais e sonoras, que deliciam a plateia. Na atualidade, capta alguns bons momentos, como uma performance musical do velho Braguinha e uma hilária entrevista de Regina Casé com a família Caymmi. No mais, é uma cronologia ilustrada, sucessão de efemérides na vida de um homem com faro para a publicidade e espírito empreendedor.   

Site do filme 

  

Foto: Carlos A. MattosJulia Bacha (foto), diretora de Budrus, na conversa com o público, sábado no CCBB: “Meu filme não é pró-Palestina. Ele é também pró-Israel. Os únicos israelenses que são realmente pró-Israel são aqueles que já compreenderam a necessidade de se buscar a harmonia e a co-existência com os palestinos. Do contrário, Israel não vai sobreviver no longo prazo”.  Domingo 17h30 no CCBB é a última chance de ver Budrus e conversar com Julia.

 

Budrus

Utopia realizada. Na pequena aldeia de Budrus, perto da fronteira entre Israel e a Cisjordânia, pode-se dizer que uma utopia se concretizou. A comunidade palestina, através da resistência pacífica, obrigou Israel a afastar o Muro de Segurança e preservar a integridade de seu território. O caráter “utópico” está na maneira como isso aconteceu: mediante a união dos líderes locais do Hamas e da Fatah, mais a participação de israelenses progressistas e ativistas internacionais. Essa convergência de consciências, única forma de propiciar harmonia à região, aconteceu em Budrus e se propagou a outras localidades dos territórios ocupados. A diretora brasileira Julia Bacha, integrante da organização internacional Just Vision, testemunhou os acontecimentos e integrou ao seu filme materiais gravados por diversos ativistas. Algumas cenas de refregas entre soldados e resistentes são de tirar o fôlego. Budrus tem um roteiro exemplar, que articula muito bem as ações lideradas por Ayed Morrar e as reflexões de personagens envolvidos nos dois lados do conflito. Um filme que escapa ao sensacionalismo e ao sentimentalismo comumente encontrados nesse gênero de documentário. Mas nem por isso deixa de ser épico.    

Site do filme 

– CCBB 11/4, às 17h30, com a presença da diretora

 

O Contestado – Restos Mortais

O espírito da História. Prepare-se. A Guerra do Contestado (1912-1916) não tem a clareza de Canudos. É antes um cipoal de escaramuças, motivações, lideranças sucessivas, redutos geográficos distintos entre Paraná e Santa Catarina – algo difícil de entender por natureza. Sylvio Back não tentou simplificar nem resumir didaticamente a história, como fizera há 40 anos no ficcional Guerra dos Pelados. O doc atual é como se o clássico “debate após o filme” acontecesse durante a projeção mesmo. Historiadores, jornalistas e descendentes de testemunhas do conflito falam em closes bem fechados, cada qual com seu nível de fabulação sobre os aspectos bélicos, políticos, sociais e religiosos da guerra. Embora utilize aqui e ali material de arquivo, ilustrações e maquetes, o diretor pretende dar mais trabalho à imaginação que ao consumo do espectador. O recurso mais discutível são as “entrevistas” com médiuns em transe, que pontuam todo o filme. Se isso repercute a grande participação de videntes no Contestado, não garante acréscimos sensíveis à narrativa, além de soarem falsos e inócuos em sua maior parte. Também tenho restrições ao tratamento gráfico das fotos e obras plásticas, um tanto duro e confuso. A grande força do doc são as participações dos velhos moradores da região, um tesouro de história oral que entra para os anais do movimento.

Unibanco Arteplex, 10/4 às 21h e 13/4 às 14h

Leia ensaio de Sylvio Back sobre o filme

 

Karl Max Way

A motoboy’s life. Ele podia ser Jean-Charles. Também tem nome estrangeirado, é brasileiro e se vira como imigrante ilegal em Londres. Mas seu nome é Karl Max (assim mesmo, sem “r”) Almeida. Profissão: motoboy. Oito em cada dez courriers de Londres têm passaporte brasileiro. Como o goiano Karl Max, muitos se safam com documentos, nomes e endereços falsos. Trabalham entre a esperança de fazer um pé-de-meia antes da volta e o medo da deportação. Flávia Guerra e Maurício Osaki seguiam os pneus de Karl Max no ano passado quando um evento inesperado jogou água fria nos planos do rapaz. O curta é superficial, mas flagra o jeitinho brasileiro funcionando na Inglaterra. Se alguém tivesse feito um doc sobre Jean-Charles ainda vivo, seria bem próximo do que se vê aqui.    

Unibanco Arteplex, 11 e 14/4 às 17h; IMS, 13/4 às 16h

 

Segredos da Tribo

Os filmes de José Padilha são corajosos. Isso implica estarem sempre no lusco-fusco entre a complexidade e o sensacionalismo. Leia a resenha completa

José Padilha no saguão do Arteplex: “E olha que eu deixei muita coisa de fora do filme. Não contei, por exemplo, que (o antropólogo) Napoleon Chagnon comprou uma mina de ouro na Amazônia”.

Foto: Carlos A. MattosBill Nichols (foto), o mais celebrado teórico do doc contemporâneo, estava na abertura do Arteplex ontem. Parece ter se divertido com as intrigas dos etnógrafos no filme do Padilha. Torce para não chover, pois quer pegar uma praia antes de ir para São Paulo na segunda.  

Bom programa para sábado é ver Esta Secretária Eletrônica não Grava Recados, de Alain Cavalier, no IMS às 14h e emendar com o debate sobre os docs desse peculiar diretor. Na mesa, Anna Glogowski, Luiz Carlos Merten e Patricia Rebello. Leia mais sobre Cavalier e veja a video-carta que ele enviou ao ÉTV

A presença da diretora brasileira Julia Bacha é esperada nas sessões de Budrus, sábado 16h e domingo 17h30, no CCBB. No domingo vai haver tempo para uma pequena conversa após a sessão, que eu vou mediar.         

  

2 comentários sobre “É Tudo Verdade – resenhas e notas

  1. O filme “Segredos da Tribo” não é o primeiro filme sobre o tema, existe um dcumentário de 2004 que trata do mesmo tema, chamado “Napepe”, creio que está no you tube, tão bom quanto, vale a pena!

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