O realismo lírico de Vittorio De Seta

Se você gosta de documentários e estará no Rio na tarde de quinta-feira, um conselho: adie outro compromisso, engane o chefe, deixe o parente no hospital. Faça qualquer coisa para não perder a única reprise da sessão Vittorio De Seta, às 15h30, no Instituto Moreira Salles.

Não confunda De Seta com o mais famoso e prolífico Vittorio De Sica. Nascido em Palermo, em 1923, De Seta ainda é vivo e filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a esses 10 curtas realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959, todos com esplêndida fotografia em cores. À exceção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e cotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia. Por vezes somos tomados pela mesma imersão que nos provocavam os bons e velhos filmes dos Irmãos Taviani e de Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos).

Vittorio De Seta

Há um pouco de Flaherty na sutil encenação do trabalho, um pouco de Grierson na seleção de momentos e na criação de climas dramáticos. Vários curtas foram filmados em Cinemascope ou num certo Cineramica, formatos que ampliam o espectro do quadro com efeitos magníficos sobre a paisagem e as aglomerações de camponeses. Sem entrevistas nem narração, as imagens dão conta de tudo, auxiliadas de maneira muito evocativa por sons ambientes e cantos de trabalho. Em cena, um modo de vida rude e arcaico, visto por De Seta com um viés lírico, embora não exatamente nostálgico. O conjunto dos filmes foi lançado em DVD na Europa com o título de “O Mundo Perdido”.

Mas nem tudo ali é passado. Quem assistir, por exemplo, a Camponeses do Mar, vai ver cenas assustadoras da emboscada e matança do atum, que em tudo se assemelham aos momentos mais sangrentos de The Cove, vencedor do Oscar de doc do ano passado. As condições de trabalho dos mineiros de enxofre em Surfarara talvez não sejam muito diferentes das que prevalecem ainda hoje em certas minas do Terceiro Mundo.

Em cada curta de De Seta, experimentamos (mais do que testemunhamos) um dia na vida de um grupo. É extraordinário o uso da luz e da montagem para restituir o fluxo do tempo e da labuta, com seus momentos de preparação, espera, progressão, clímax e repouso. Não há como não destacar a expectativa dos moradores de Stromboli durante as erupções de 1954, a “coreografia” dos debulhadores de trigo em A Parábola do Ouro ou a quase sublime condensação do cotidiano em Um Dia em Barbagia.

Alguns desses filmes podem ser encontrados no Youtube ou em sites de download. Mas eu aconselho a não perder a oportunidade de vê-los assim, em cópias impecavelmente restauradas pela Cinemateca de Bolonha. Para lembrar que documentários também podem ser belíssimos espetáculos de cinema.

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