Dizer é fazer

Depois de flertar com as imagens em movimento em suas peças e no Moscou de Eduardo Coutinho, Enrique Diaz finalmente assinou seu primeiro trabalho para a tela. Ele foi apresentado ontem, na abertura do evento Atos de Fala, no Oi Futuro Ipanema. O Deus no Arroz Doce é um vídeo-ensaio de memória familiar, tecido com retalhos de filmes domésticos, muitos deles projetados nas paredes da casa ou mesmo sobre pessoas da família do diretor. O resultado é muito bonito e singelo.

O título vem de uma conversa de Enrique com sua mãe sobre a onipresença de Deus. O mote dos múltiplos lugares serve a uma rememoração da história da família Diaz. Como os índios guaranis que se deslocam sempre em busca da “terra sem males”, os Diaz viveram em diversos países antes de se fixarem no Brasil. O acervo Super 8 da família é mobilizado assim para uma espécie de balanço do que ficou nas imagens. Algumas fotos não são vistas, mas apenas descritas em palavras, o que completa bem o sentido buscado pelo evento: fala, corpo, cinema e performance em busca de novas interações.

Não que isso tenha a ver diretamente com a mostra, mas existe uma Teoria dos Atos de Fala, voltada para as ações humanas que se realizam através da linguagem. Para seu criador, o inglês John Langshaw Austin (1911-1960), dizer alguma coisa é não somente transmitir informações, mas também agir sobre a consciência de quem ouve. Em poucas palavras, “todo dizer é um fazer”.

Foto: Carlos Alberto Mattos

Na tarde de abertura, os curadores Cristina Becker e Felipe Ribeiro (foto acima) simpaticamente se desdobraram para explicar as ideias por trás de conceitos como “palestras-intervenções” e “esculturas-arquivos”, que estão propondo até domingo no Oi Futuro. Não é tarefa fácil, já que se trata de recombinar gestos artísticos e formação de memória numa só ação. Por exemplo: os palestrantes-interventores de cada noite trabalham os “rastros” de sua performance, com ajuda do público ou não, como um arquivo de memória para o dia seguinte. Os três vídeos-ensaios comissionados, por sua vez, ficam em exibição permanente na galeria, nos quatro dias restantes. Inclusive o “amarcord” de Enrique Diaz.

Visite o site do evento e anime-se para encarar novos formatos.

Um comentário sobre “Dizer é fazer

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