Personagens-autores

Em quase todo documentário, os personagens são também um pouco autores. O que varia são as medidas e as formas como isso se dá. Se o diretor os escolhe e, em última instância, determina quanto deles fica e onde fica dentro do filme, são eles que fornecem, digamos, o argumento. Além disso, de alguma maneira influenciam o ritmo, o tom e a estética visual do filme mediante suas falas e sua presença física dentro do quadro.

O debate de amanhã (quarta, 15h) na Semana dos Realizadores vai enfocar esse tema. No Forum de Ciência e Cultura da UFRJ (Av. Pasteur, 250, sala Moniz Aragão), vou mediar uma mesa com os diretores dos docs Estradeiros, O Corte do Alfaiate e Romance de Formação. Ana Rieper, de Vou Rifar Meu Coração, não vai participar como programado, em função da exibição do seu filme na Mostra de São Paulo.

Embora nenhum desses trabalhos enverede pelo rumo da transferência de autoria, como foi muito praticado em docs recentes (vide O Prisioneiro da Grade de Ferro e alguns de Evaldo Mocarzel), há ali material para uma boa discussão em torno do assunto.

Imagem de webcam em "Romance de Formação"

Romance de Formação até chega a usar imagens de celular e webcam feitas por um dos personagens, mas isso não chega a ser um procedimento determinante no filme. A diretora Julia De Simone reuniu fragmentos do cotidiano e das reflexões de quatro jovens brasileiros que estudam longe da terra natal. Um pianista na Alemanha, uma estudante de literatura em Stanford, um rapaz no curso de Direito Internacional em Harvard e um mineiro estudando Medicina no Rio. É um filme voltado para o empreendedorismo pessoal, a disposição para estudar arduamente e manter com os seus uma relação quase sempre apenas virtual. Esse mote do crescimento individual e da busca do conseguimento se reflete na linguagem muito limpa do filme, no privilégio das simetrias e dos personagens ocupando o centro do quadro, ou seja, no controle de suas vidas.

Estradeiros, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, enfoca pessoas – jovens e maduros – no oposto desse espectro. São outsiders sul-americanos ocupados com venda de artesanato, malabares de rua, gente que sobrevive de lixo, bichos-grilo de variada espécie. Esse estilo de vida alternativo e nômade parece inspirar o próprio estilo do filme, que não se fixa em nada por muito tempo, desloca-se no tempo e no espaço de modo aleatório e descontínuo. Peru, Buenos Aires, São Tomé das Letras, Recife, São Paulo – Estradeiros é um road movie sem destino definido, que anda de carona nos seus personagens.

O Corte do Alfaiate, por sua vez, trata de uma profissão possivelmente em vias de extinção. A partir de uma pesquisa etnográfica, ouve considerações de alfaiates de Curitiba sobre seu ofício, sua visão a respeito do mercado de confecções prontas, suas dificuldades em passar adiante os segredos do métier, etc. Num misto de observação da rotina e tomada de depoimentos diretos, João Castelo Branco retira algum efeito da estagnação dos planos nos espaços exíguos das alfaiatarias. Estagnação e ordem para retratar um trabalho que parece ter chegado a seu ocaso.

Se essas especulações sobre a relação entre estética e personagens fazem algum sentido, e como essa dinâmica se realizou na criação de cada filme, isso é um pouco do que vamos discutir amanhã com os realizadores. Pena que Ana Rieper não estará presente, pois os personagens de Vou Rifar Meu Coração são em boa parte autores do colorido humano e da simpatia que emanam do filme.

5 comentários sobre “Personagens-autores

  1. Pingback: Romance de Formação « Mirada Filmes

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  3. Pingback: A pequena fábrica de matizes « …rastros de carmattos

  4. Oi Ana, o debate foi ótimo, rendeu muita coisa legal, mas de qualquer forma sentimos muito sua falta. Vamos conversando. Gosto muito do seu filme. Um beijo bem brega.

  5. Carlos,

    Uma pena mesmo que eu não possa participar desse debate, eu estava com grandes expectativas pra essa conversa. Tomara que a gente possa trocar muitas idéias sobre esse filme.

    Um abraço,

    Ana Rieper

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