Variações da mesma melodia

Meu amigo cinéfilo Julio Miranda acha “o melhor filme de amor brasileiro”. Muitos colegas críticos se derramam em elogios, às vezes repetindo cansados chavões sobre o condensado humano dos filmes de Eduardo Coutinho. O próprio Coutinho há tempos não ficava tão satisfeito com um filme seu.

Diante de tudo isso, quem sou eu para discordar? Por isso revi As Canções tentando compreender melhor – e se possível dissipar – minha insatisfação com o filme. Mas como só fiz confirmar minhas primeiras impressões, limito-me a repetir aqui o que escrevi por ocasião do Festival do Rio, onde As Canções, por sinal, ganhou do júri e da crítica o prêmio de melhor documentário:

As canções sempre tiveram um papel importante nos filmes de Eduardo Coutinho. Quando os personagens de Santo Forte, Babilônia 2000 ou Edifício Master, por exemplo, eram instados a cantar diante da câmera, aquilo fazia parte da proposta de autofabulação embutida nos filmes. Ao cantar, as pessoas se reinventavam, assumiam mais plenamente o “teatro de si mesmas” que Coutinho buscava estimular com suas entrevistas. Esse recurso, subsidiário em vários trabalhos, ganha o proscênio agora em As Canções.

Invertendo o enquadramento de Jogo de Cena, as personagens de As Canções aparecem saindo das coxias para o proscênio de um teatro, e falam com a cortina ao fundo. Mais uma vez, parecem estar a sós com o diretor e suas lembranças. Cantam e explicam por que aquelas se transformaram nas músicas de suas vidas. A maioria dessas histórias se prende a amores perdidos no passado mas cuja memória ainda trava a voz e arranca lágrimas. Daí o filme ter um caráter algo repetitivo, como variações de uma mesma melodia. As canções, por seu turno, nem sempre parecem justificar plenamente o desenrolar das conversas, que Coutinho tenta sustentar às vezes penosamente, como que tirando leite de pedra.

Mas o que talvez roube mesmo de As Canções a força e a originalidade de outros filmes do diretor é o déficit de carisma de diversos personagens. Coutinho infringe uma regra básica do seu cinema, que é a particularidade graciosa de seus entrevistados. São poucos os momentos em que se dá aquele milagre de comunicação a que ele nos acostumou. Esse é, a meu ver, um momento de relativa estagnação no conjunto de uma obra desbravadora.

4 comentários sobre “Variações da mesma melodia

  1. Carlinhos, de fato acho o filme do Coutinho “As Canções” o melhor filme de amor brasileiro, ele reúne pessoas do povo, em grande parte de idade já avançada, falando de seus amores e de suas canções. Até a década de 70 os namorados tinham suas canções, que eram de filmes, que viram juntos, ou de bailes, onde começaram a namorar. O filme nada tem de repetitivo, cada caso é um caso, podem ser parecidos, mas nunca iguais. É só prestar atenção nas músicas, que tem Carlos Lyra e Vinicius, Chico Buarque, Roberto Carlos, Orlando Silva, Perfídia e etc. tão diferentes! Quando assisti o filme, cometi um erro; foi não aplaudir a primeira música, pois se fizesse isto a platéia iria aplaudir o filme inteiro, interagindo melhor com o filme e participando dele com o Coutinho.. Em vários momentos na minha sessão a platéia aplaudiu, e eu junto com ela. Meu amigo sempre repito o que o Borges dizia: a realidade é um mistério. O que o Coutinho mostra em “As Canções” são segredos do fundo da alma das pessoas, exatamente esses mistérios. Os personagens do filme, contam suas histórias, sentados em uma cadeira preta no cantinho direito da frente do palco, naquele momento eles são atores, no momento seguinte eles serão pessoas com quem nós, todos os dias cruzamos na rua. É uma pena que você, Bigode e Gallego, não tenham visto assim.

    • Para ser justo e deixar o Julio e demais entusiastas do filme satisfeitos, informo que vi o filme só agora, na sexta feira de estreia em circuito comercial, no artexplex de Botafogo, na segunda sessão do dia (14:40). Embora não estivesse muito cheia a sala (como de praxe neste horário), houve aplausos no final. Alguém puxou e alguns acompanharam. Na saída vi uma pequena fila para a terceira sessão do dia (masi gente do que na em que eu estive). Suponho que sexta à noite e no fim-de-semana o público interessado deve ter sido/estar sendo maior e venha a fazer algum boca-a-boca favorável. Nada contra um possível sucesso de público, tomara que sim, não troceria “contra”, imaginem! Mas, de fato, não vi o filme como o Julio e as pessoas que apaludiram. Volto à minha máxima copiada de Rosa (o Guimarães): “Pãos ou pães é questão de opiniães” (esse final é em -ães mesmo que, no mínimo, rima com Guimarães).
      P.S.: Julio, eu precisaria de rever “They live by Night”, do Nick Ray que não pude ver em película na mostra no CCBB, estive adoentado no dia em que pretendia ir. Acho que se chamou “Amarga Esprança” no Brasil, mas não sei o título do DVD lusitano que vi há alguns anos, você deve saber como localizar. É para escrever um texto. Abraços, Gallego

  2. O filme parece que vai começar bem com uma senhora cantando “Minha Namorada”, mas aos poucos tudo vai ficando não só repetitivo, mas desinteressante.
    Como apontado por Carlinhos, os personagens não são tão interessantes – talvez pela autocomplacência com suas paixões, vivendo suas personas de modo eternizado. O filme faz o registro em “um por um” de uma realidade absolutamente pouco interessante. Nessas horas uma ficção rofrigueana (ou mesmo menos “carregada”) pode iluminar mais sobre vidas semelhantes do que esse registro quu vai ficando quase burocrático.
    Eu já sentira algo parecido em outro filme do Coutinho anterior a “Jogo de Cena” (que eu acho excelente) Mas na época esse filme (acho que se chamava “O princípio e o fim” foi endeusado e eu fiquei meio de pé atrás comigo mesmo, mas vendo “As Canções” senti a mesma decepção que tive com aquele “O Fim e o Princípio”. Em “As Canções” vemos pessoas que não tem muito a dizer além de suas pequenas grandes tragédias amorosas assim como no outro filme mais antigo dava-se voz a pessoas muito simples que traziam suas “filosofias de vida” bem respeitáveis mas simplórias que pouco me interessaram.
    “As Canções” só não é mais frustrante do que “Moscou”. Saudades de “Edifício Master”, “Babilônia 200” e, claro, “Cabra Marcado para Morrer”.

  3. Pode parecer uma bobagem, mas só acredito em cinema que luta pra sobreviver como arte.Os filmes dos países socialistas ou de outros subsidiados completamente pelo Estado, acabam contextualizando um cinema oficial,sem tesão,e repetitivo.Mesmo os que tentam fingir que não são loas aos regimes que os sustentam (como o cubano), ou acabam ou se perdem em metáforas das metáforas das metáforas.
    Até os filmes de estúdio do Império americano precisam desse “sempre alerta” da parte de seus diretores, no sentido de cumprir o desafio de responder às expectativas que o mercado cria, senão, fica fora do processo produtivo.
    Me parece que o Coutinho virou funconário público de si mesmo – faz sempre os mesmos filmes, com variantes entre si.Muitos deles são bons, mas a velha repetição de um método estagnado e repetitivo parece ser a tônica dominante.Se por um lado é o sonho de todo realizador independente ter a garantia da produção dos próximos filmes, por outro isso tira essa vitalidade necessária para a criação – o ir à luta, o risco, o desafio.Isso que faz, aos 83 anos, Nelson Pereira dos Santos fazer seus filmes, se aventurar, e se auto-estimular pela falta de garantias que o mundo, apesar de dever-lhe, não lhe dá!

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