O pré-Hemingway de Curitiba

Essa cara de moleque paranaense aí em cima não engana. Bem antes de pular para trás das câmeras, Sylvio Back era um jovem crítico de cinema e teatro, jornalista “entrão” que sonhava em ser copidesque, posição cobiçada nas redações em fins dos anos 1950. O Diário do Paraná confiou-lhe em1959 a edição de sua página literária dominical. Influenciados pelo Suplemento Dominical do JB carioca, Back e o programador visual de nome não menos literário, Emilio Zola Florenzano, criaram uma página dinâmica, arejada, contemporânea. Durante 85 domingos, o letras e/& artes (assim mesmo, com minúsculas) fustigou a cena cultural de Curitiba. Parou de circular quando Back, aos 23 anos, foi demitido por liderar uma greve salarial.

Agora, 50 anos depois, o letras e/& artes ressurge em edição facsimilar, patrocinada pela Itaipu Binacional e distribuída à margem do comércio. Dá gosto folhear as páginas enormes e ver como o debate cultural de uma fase de transição na cultura brasileira repercutia num ambiente relativamente provinciano.

A pauta aprovada pelo editor Sylvio C. Back contemplava contos, poemas, traduções (de Genet, Camus, Lorca etc), críticas de filmes e montagens teatrais, ensaios sobre existencialismo (então na moda entre os jovens curitibanos) e muitos textos editorializantes contra os pseudointelectuais, os escritores “barrocos”, os críticos “viteloni” (boas-vidas) e os canastrões de toda ordem. A página era feita por e para os “jovens da terra”, como afirmava o editor.

Back jogava em diferentes posições. Como crítico de cinema, saudava Tati, Jules Dassin e Tchukrai, incensava O Grande Momento de Roberto Santos e duvidava de Glauber na afirmação de que a ida das câmeras para o Nordeste renovaria o cinema brasileiro. Voltando-se para os palcos, lastimava “o ambiente descultural do teatro paranaense” e celebrava a novidade do Teatro de Arena. Rebatia Wilson Martins em defesa de um escritor-filósofo local. Defendia a Lolita de Nabokov (“nada tem de imoral”), Os Amantes de Louis Malle e a revolução cubana (“Não foi em vão que Sartre disse ter Castro feito o que é preciso fazer”). Outros pequenos textos, de teor “angustial” (então sinônimo para existencial), prenunciavam a veia ficcional do futuro cineasta-poeta.

Do garoto que aspirava a ser um “pré-Hemingway” ao diretor de filmes como Aleluia Gretchen e Lost Zweig, Sylvio Back mudou muito e ao mesmo tempo não mudou tanto. Os seus filmes e – principalmente – os textos que ele produz em paralelo conservam bastante daquela verve conflagradora, da rejeição a alinhamentos e do gosto pela palavra mordaz.

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