Pílulas na rede 3

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Além de seu excelente trabalho como redator da Filme Cultura (aguardem o número 56, em junho), Luís Alberto Rocha Melo me deu outra alegria com seu novo filme, NENHUMA FÓRMULA PARA A CONTEMPORÂNEA VISÃO DO MUNDO. Paródia de um processo de contratação artística envolvendo uma escritora em clima de separação amorosa, um “gangster cultural” paulista e um diretor teatral polonês com fome de sexo, a comédia tem insuspeitados sabores sganzerlianos e godardianos. Uma atriz fenomenal, Anna Karinne Ballalai, segura a peteca de improvisações deliciosas, coadjuvada por atuações igualmene impagáveis de Alessandro Gamo e Roman Stulbach, este estreando como ator. A trilha sonora é uma atração à parte, de Debussy a “I’m singing in the rain” (ou melhor “Assim eu me enganei”). A brincadeira inteligente tem potencial para extrapolar o “filme de turma para a turma”.

Terra bruta, ruínas, morte precoce, uma cidade fantasma – MÃE E FILHA não tem refresco do primeiro ao último plano. Até aí, tudo bem. Sokurov e Tarkovsky também passaram por essas plagas. O problema do filme de Petrus Cariry, a meu ver, é que não consegue transcender essa cova em que se enterra deliberadamente. Tudo é encenado com tanto peso, tanta intencionalidade, tanta convicção de que se está mostrando algo de muito sério e grave, que acabou me aborrecendo apesar das imagens cuidadas e do som intrigante. Um filme que se esgota na busca da solenidade, da “expressividade” plástica a todo custo e de muletas simbólicas como a Ofélia de Hamlet e os “4 vaqueiros do Apocalipse”. Não vi argumento para sustentar tanta pretensão.

O QUE EU MAIS DESEJO é um Kore-Eda menor. Flerta com as facilidades do cinema infantil japonês, como fazia Kitano em KIKUJIRU. Mas tem um fundo moral interessante: não há caminho mágico para realizarmos nossos desejos. O que conseguimos de fato é somente correr atrás deles. Ou então as coincidências, os acasos, os simulacros (biscoito com sabor de carpaccio de cavalo). O resto é conformar-se com o que não se realiza de jeito nenhum e seguir vivendo. Depois de tanto doce e tanta criança simpática, a mensagem vem dura, realista.

DE VERDADE, a peça adaptada do romance de Sandór Marai em cartaz agora no Planetário, é uma experiência interessante entre o teatro convencional e o “livro encenado”. Se o texto é excelente, a transposição de Susana Schild e Isabel Muniz sabe tirar partido do narrador múltiplo e do jogo de versões com que as cenas desse casamento são apresentadas. Guilherme Piva dá um show de nuança e relevo dramático ao marido burguês que se relaciona com mulheres de outras classes.

AMOR E DOR: Não amei nem me doeu. Fiquei quase sempre indiferente à história de “amor adesivo” (cfe. resenha de Luiz Fernando Gallego) entre a universitária chinesa e o trabalhador braçal francês numa Paris coalhada de imigrantes. O filme monta paisagens transculturais à moda de Wong Kar Wai, menos o glamour. Lembra algo também do último Salvá, NA CARNE E NA ALMA, embora não vá tão fundo na perversão romântica. Um belo momento: o desespero de Hua quando cai a ficha de que está (novamente) apaixonada. Ali doeu um pouquinho.

Ontem eu vi A PRIMEIRA VISTA, peça em cartaz no Teatro Poeira. Não tem a mesma potência de IN ON IT, do mesmo autor, Daniel MacIvor. Ali pelo meio o material começa a perder força e rodar no vazio. Mas como os textos de MacIvor dependem MUITO da direção e dos atores, este não poderia estar mais bem servido. Drica Moraes e Mariana Lima dão um show de ritmo, graça e compreensão mútua e do texto. A direção de Enrique Diaz é sintonizadíssima com o contemporâneo, atenta a cada inflexão de voz ou de corpo. E é tudo isso que segura o interesse até o final. Com uma emoção a mais: a felicidade de ver Drica Moraes de volta, sã e linda. E hilariante.

O HOMEM QUE NÃO DORMIA não é filme para todos os gostos. Foi para o meu, ainda bem. É preciso gostar de um certo mau-gosto, no bom sentido. É preciso gostar de uma Bahia profunda e peluda, safada e mística. É preciso gostar de “Ó Paí Ó” misturado com Georges Bataille. Tem que apreciar Monteiro Lobato virado de cabeça pra baixo com uma faísca saindo da bunda. Edgar Navarro faz uma bagunça da porra no roteiro, mas como filma o feladaputa, valha-me deus! Tudo é surpreendente, vibrante e bonito no filme: locações, direção de arte, fotografia, elenco, montagem e a direção ao mesmo tempo expansiva e precisa de Navarro. Pode ter lá seus excessos, mas cada um deles tem a medida certa, você entende? Pois vá correndo ver, não ligue muito para a continuidade da narrativa, que é muito louca mesmo. Deixe-se perder na força e na boniteza de cada cena. Ali ninguém dorme. Nem o Bonequinho. Uma coisa pelo menos não soa completamente original em O HOMEM QUE NÃO DORMIA: a atribuição por engano do nome “Me Esqueci” a um personagem e a uma cidade já acontecia em BRASIL ANO 2000, de Walter Lima Jr. Naquele filme, as pessoas também gritavam “Me Esqueci!!!” no ermo da locação. Mas, vá lá, como BA2000 está fora de circulação há tanto tempo, acaba soando original de novo.

Um comentário sobre “Pílulas na rede 3

  1. Mae e Filha e um filme poderosíssimo, estou perplexo, o diretor Petrus Cariry tem um talento muito acima da media do cinema nacional! Viva a essa pequena obra-prima. Realmente o filme e pretensioso em alguns momentos, mas acho que falta isso no cinema brasileiro coragem e pretensão. Abs . Fernando cordeiro

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