Por um lugar ao mormaço

Mesmo que não atraia mais as atenções da grande mídia nem de um público mais geral, os concursos de miss continuam existindo pelo Brasil afora. Tornaram-se eventos de mera manutenção de um status quo: moças bonitas devem ficar o mais bonitas possível, desfilar numa série de encarnações (sensuais, elegantes, inteligentes, sensíveis) e disputar um lugar, se não mais ao sol, pelo menos ao mormaço.

Assim é nas cidades satélites de Brasília, onde se dão os concursos de misses que vão disputar o título de Miss Distrito Federal. A diretora Dácia Ibiapina, professora da Universidade de Brasília, acompanhou um processo desses em três locais em 2009 e 2010, culminando com a escolha da Miss DF 2010. Na verdade, Entorno da Beleza, que passa hoje, (quinta) às 20h no festival Femina, não acompanha propriamente o processo, mas pontua observações um tanto soltas dos ensaios, preparações e apresentações das meninas de Estrutural, Recanto das Emas e Sobradinho II. Conheça o blog do filme.

Que não se espere retratos comoventes nem entrevistas denunciadoras dessas Mayaras, Thayannes, Joyces, Narahyanes, Pryscilas etc. Além da profusão de yy nos nomes, pouco se sabe delas. Não sei se por insuficiências na captação ou se por uma opção deliberada de enfoque, o filme concentra-se quase exclusivamente na máquina de “produção” e descarte que são os tais concursos. Ressalta o autoritarismo ou o paternalismo dos preparadores e coordenadores, a rotina fria das seleções e a superficialidade das relações num ambiente esvaziado de sentido, onde ninguém – nem mesmo as candidatas – parece acreditar muito naquilo de que participa. “A partir de agora vocês são cabides”, esbraveja uma instrutora.

Essa impressão de alienação, de clichê cansado, dá o tom de um filme que se mantém aparentemente distanciado de seu objeto. A falta de um eixo de atenção ou de um personagem que conduza a narrativa, se por um lado realça a opção de Dácia por revelar o mecanismo desumano, por outro deixa o espectador à mercê de uma montagem demasiadamente plana. Os contrastes entre o pequeno luxo das misses e a melancolia dos bairros pobres são insinuados apenas timidamente.

Mais interessante é comparar as imagens de abertura, dos tempos áureos da Miss Brasil e da consagração de Marta Rocha em 1954, com as ótimas cenas das misses de Brasília comendo em silêncio num bandejão. Não há mesmo sonho que resista a tanta realidade.

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