Por que ainda gostamos de Woody Allen?

Por quê, se ele se dedica agora a fazer institucionais turísticos de cidades europeias como Meia-Noite em Paris e Para Roma com Amor?

Por quê, se ele não se preocupa mais em criar roteiros originais, mas simples paródias de velhos plots (agora O Sheik Branco, o personagem mais velho que atua como consciência do mais jovem, a prostituta enviada ao homem errado, a celebridade nascida do nada, todo o subgênero “férias romanas”)?

Por quê, se ele não dá mais atenção à costura entre seus personagens, mas joga-os de qualquer jeito na tela, seja introduzidos por um guarda de trânsito, seja reunidos por coincidências bobocas?

Por quê, se ele força situações somente para encaixar frases engraçadas e referências que nos fazem sentirmos inteligentes apenas por entendermos sua ironia?

Por quê, se ele se permite combinar módulos de fato interessantes – a descoberta do cantor de chuveiro (como ninguém tinha filmado isso ainda?) – com outros entediantes – o affair do arquiteto com a mocinha liberada, por exemplo?

Por quê, se a trilha sonora “italianada” é chata e repetitiva, e as imagens são o clichê do clichê?

Se você leu até aqui, saiba que não tenho resposta a essas perguntas. Mas o fato é que rimos das frases, curtimos cada momento em que Woody Allen está em cena e perdoamos as baboseiras que ele se permite cometer. Woody talvez tenha nos ensinado a não esperar muito dele o tempo todo. Faz parte da relação que temos com ele. É como o amigo que nem sempre está agradável, mas gostamos de encontrá-lo porque de repente pode vir a piada salvadora, o chiste inteligente que repõe a amizade no lugar.

A observação da prostituta no Vaticano ou a conversa de Woody com o agente funerário são tiradas que valem uma sessão de cinema. Talvez seja por isso que a gente ainda espera o filme de Woody Allen em Madri, em Tóquio ou no Rio. Afinal, nenhum amigo é perfeito.

7 comentários sobre “Por que ainda gostamos de Woody Allen?

  1. O que eu acho curioso é que quando Woody Allen fazia filmes mais dramáticos, epígonos dos de Bergman e mais eventualmente dos de Fellini, muito (supostamente) fã reclamava que ele não fazia mais filmes gaiatos como “Bananas”, “O Dorminhoco” ou “Tudo que vc queira saber sobre sexo…”. Nunca curti especialmente esses filmes e acho que envelheceram muito mal. Já um “Crime e Pecados” só fez crescer com o tempo. E quando ele filmou uma chanchada digna do melhor Oscarito (“Escorpião de Jade”) todo mundo que queria “Bananas” reclamou novamente. Fico pensando se as pessoas gostam mesmo dos filmes antigos dele ou da época idealizada na qual os assisitiram com menos exigências. Hoje, bateria uma espécie de nostalgia similar à de quando escutamos certas canções antigas que foram marcantes para nós, seja por que motivo for. Estão cobrando de “Para Roma com amor”, que não é nehuma obra-prima, e nem quis ser, eu não sei o que. Acho que nem sabem direito o que esperam de Woody Allen, mas que nunca é o que ele oferece em suas ofertas diversificadas.

  2. Já gostei muito de Allen. Mesmo naquela epoca, felizmente que durou pouco, em que ele imitava Bergman. Mas depois de uma sucessão de baboseiras, tipo O Escorpião de Jade, acho que ele já devia começar a pensar na aposentadoria. (Uma exceção foi À Meia Noite em Paris.) Aquele filme passado em Barcelona é recheado de clichês. Saudações.

    • Exatamente, Sobreira. Concordo com você. Já basta a paciência que tivemos com ele, o Allien, enquanto motejava, parodiava e, no final,
      “diluía” (na verdade, não conseguia, é lógico)… Ingmar Bergman.
      WA devia etr ficado na comédia — para a qual tinha inequívoco talento.
      “Sério” (?) ele não passa de uma piada sem graça e sem substância, boa (??) apenas para tempos de cultura média como estes, nos quais a falta de cultura dele bate, perfeitamente, com a falta de cultura das platéias que aplaudi..IAM as suas mistificações de novaiorquino posando de “cineasta sábio” (???), um engodo que, felizmente, passou –ou está passando. Seja como for, que descanse em paz (porque já está morto e sepultado, apesar das “platéias” que ainda não ENCHERAM seus respectivos sacos, pra usar o verbo de fanzoca do Carlos Mattos)…

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  4. Eu NÃO espero nada mais de Mr. Allen — ou “gosto” (?) ainda dele…
    Só se for você e alguns amigos seus, que esperam e gostam. Generaliza não, amigo, dando por líquido e certo o que há muito não é verdade (o “gostar” desse clarinetista-cineasta obviamente acabado)…

    • O “nós” que usei, Fernando, refere-se claramente aos que ainda gostamos dele. Mas são muitos também os que pensam como você. Só não concordo que ele esteja “acabado” enquanto as plateias se enchem para vê-lo.

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