Com a palavra, os críticos

A suposta decadência da crítica de cinema, sua relativa perda de autoridade e sua diluição no torvelinho das opiniões online são motivos frequentes de comentários nas redes sociais. Há mesmo um certo descaso entre o público mais culto, para quem a crítica tornou-se supérflua ou até desprezível.

Se há uma pessoa para quem os críticos de cinema ainda importam, nem que seja como objeto de estudo, é a professora Eliska Altmann, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Desconfio que o interesse de Eliska pela etnografia pode estar por trás de suas pesquisas junto a essa tribo que alguns julgam em vias de extinção. Em 2010 ela lançou o livro O Brasil Imaginado da América Latina, em que analisava a recepção dos críticos latino-americanos aos filmes de Glauber Rocha nos anos 1960 e 70, e os de Walter Salles nas décadas de 90 e 2000 (leia minha resenha aqui).

Essa investigação, iniciada em 2006, gerou mais um resultado importante, sob a forma de um site que entrou no ar semana passada. Cinecríticos reúne entrevistas com 38 críticos do Brasil, México, Argentina e Cuba, países onde Eliska trabalhou em sua coleta. Nesses depoimentos gravados em vídeo, a pauta não era a mesma do livro, mas um amplo leque de questões fundamentais sobre o ofício. A própria Eliska enumera: “a formação do crítico, o que é crítica, quais as diferenças entre a escrita para meios massivos e restritos, o que seria um cinema nacional e latino-americano, qual o papel da crítica nesses países específicos, e qual o seu estado nos dias atuais em comparação a sua institucionalização nos anos de 1950/1960”.

Na apresentação do site, a pesquisadora adianta alguma das conclusões a que chegou com o trabalho:

“De todas as respostas obtidas e aqui disponíveis a pesquisadores, estudantes, aspirantes a críticos e público em geral, creio ser possível afirmar constatações relevantes, sendo a primeira e mais importante a dificuldade (ou até mesmo certa impossibilidade) de se chegar a uma designação estrita sobre a instituição crítica. Nesse sentido, quem buscar definições unívocas ou precisas sobre o campo, muito provavelmente, se decepcionará. Uma segunda constatação está relacionada à configuração espacial escolhida, que compreende tanto sentidos de nação quanto sentimentos transnacionais à revelia de fronteiras ou separações políticas. Verifica-se, portanto, que o tema a respeito de uma latente ‘latino-americanidade’ não se restringe aos campos das ciências sociais, mas é entendido por meio de múltiplas aproximações sociais e culturais pelo cinema e sua crítica. Finalmente, uma terceira constatação a se explicitar nos registros é a dúvida sobre um suposto fim da crítica. Como é possível conferir por meio dos relatos dos críticos há os fatalistas e os otimistas em relação ao tema. A maioria, contudo, crê que enquanto existir cinema existirá sua escritura analítica, seja ela ‘boa’ ou ‘ruim’ (e tais qualificações já fariam parte de uma outra questão)”.

De cada crítico entrevistado foi feita uma edição com 20 a 30 minutos. Consulte o mural dos críticos e, se quiser, um atalho para o meu depoimento.   

6 comentários sobre “Com a palavra, os críticos

  1. Dos nomes citados por Nelson, foram procurados, durante a pesquisa, Inácio Araújo, Luiz Zanin, Luiz Carlos Merten e José Geraldo Couto. Destes, o único que apresentou efetivo interesse em participar do projeto foi o último. De alguns, nem obtive resposta. Aliás, quanto a isso, valeria um estudo sobre um suposto “ethos” de certa crítica paulista.

  2. Carlos
    Sei que há certa limitação para inclusão de muitos críticos brasileiros, mas não poderiam ter ficado de fora Inácio Araújo, Luiz Zanin, Ely Azeredo, José Geraldo Couto, Luiz Carlos Merten e ampliando o número de mulheres, as bastante competentes Susana Schild e Consuelo Lins.
    Nelson

    Ps1. Gostei muito do depoimento de Rodrigo Fonseca. Sem demagogia, ele falou sobre suas origens proletárias. Agora deu para entender sua onipresença em “O Globo” e até mesmo o fato de fazer críticas de dublagens dos filmes na TV. Vou até tolerar mais sua obsessão com o politicamente incorreto, seus elogios a filmes como “Duro de Matar 20 “. Isto não quer dizer que não concorde com muitas de suas críticas. Também achei “Django Livre” de Tarantino genial, o melhor filme do Oscar depois de “Amor”. Acredito que ele tenha receio de ser uma carta descartada do baralho, dado que o Rio de Janeiro de forma absurda já há um bom tempo tem um só jornal de peso de grande circulação. E já houve quem dissesse com razão que pior que não ler jornal é ler um só.

    Pena que quando Daniel Caetano começou a falar de compadrio na crítica, seu tempo tenha acabado.

    Já cheguei a ver na livraria Blocks do Arteplex um livro sobre estudiosos do documentário brasileiro em que não comparece você Carlos Alberto, “louco por Docs”. Desinformação do organizador ou compadrio?

    Ótimos os questionamentos de Marcelo Janot sobre o que seria a “nova crítica”. Hoje, acredito que nem os que se consideravam “nova crítica” gostem desta expressão.

    Ps2 Estou lendo com bastante prazer a Filme Cultura 57 com o tema “Sangue Latino”. Faltou referências sobre quem é Luís Alberto Rocha Melo ao final do texto “Afinidades Eletivas?”

    • Grato pelos comentário, Nelson.
      Creio que você se refere ao livro “Ensaios no Real”, organizado por Cezar Migliorin. Não fui convidado a participar.
      Quanto ao Luís Alberto, ele não tem referência no rodapé por ser da equipe fixa de redação da Filme Cultura.
      Grande abraço, Carlos.

  3. Em verdade, são quatro as moças entrevistadas. Contudo, a observação de Luiz Fernando procede. Não é que eu não tenha entrevistado moças. O fato, me parece, é que ainda são poucas as moças no ofício (ainda predominantemente masculino). Inclusive, o tema é bem explorado na entrevista da cubana Maria Caridad. Tal questão é importante até para os estudos de gênero no campo do cinema. Vale notar que a presença feminina (também) em outros postos e setores cinematográficos passou a crescer (e tem crescido) seguindo o próprio processo histórico das várias inserções da mulher na sociedade.
    Obrigada, Carlinhos. Sempre.
    Eliska

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