Pílulas 20

Nunca vi o Cirque du Soleil ao vivo. Mas acredito que, como veículo publicitário, esse filme CIRQUE DU SOLEIL: OUTROS MUNDOS é uma faca de dois gumes. Por um lado, impressiona pelo arrojo das acrobacias e dos recursos cênicos. Por outro, dá a impressão de que os espetáculos são uma salada indigesta de referências kitsch e extravagâncias sem nexo. Na verdade, o filme é uma colagem de números de diversos shows, mal amarrados em torno da historinha de uma visitante do circo em busca do trapezista por quem se apaixonara logo ao entrar. Não dá pra levar a sério como variação de Alice no País das Maravilhas ou O Mágico de Oz. E nem dá pra levar a sério a sucessão enjoativa de saltos e mergulhos. Na primeira meia-hora, pode entreter, mas depois vai ficando tão interessante quanto ver uma horda de bonecos pula-pula em ação por 90 minutos. Não vi em 3D, mas não creio que melhore muito.

Na onda de filmes sobre idosos palpitantes e música clássica trocada em miúdos, O QUARTETO não traz qualquer novidade. Os personagens são aqueles bem tipificados: o irreverente, o magoado com o passado, a gente boa, a estrela arrogante. E uma data marcada para tudo se resolver da melhor maneira possível e a plateia sair feliz. A direção de Dustin Hoffman tem a cara do ator: discreta, sóbria, eficaz. De resto, são cinco atores excelentes cercados de velhos músicos e cantores que se conhece nos créditos finais. Não entusiasma nem ofende, não dá dó de peito nem desafina. Bastou seguir a partitura da peça original.

É preciso reconhecer a coragem de Marcelo Galvão em COLEGAS: fazer portadores de Down atores e personagens de comédia era um risco e tanto. Mas é preciso também admitir que ele não foi muito feliz no resultado. Não tanto pela opção escatológica que supostamente serviria para “normalizar” os protagonistas. A simpatia e vivacidade do trio central até que segura razoavelmente esses trancos. Mais pela ineficácia cinematográfica da comédia mesmo. A gente se diverte ocasionalmente, mas na maior parte do tempo seguimos aos solavancos um roteiro desarticulado, cheio de pontas soltas (os escoteiros, as narrativas paralelas que não levam a nada) e lacunas de dramaturgia que a narração soporífera de Lima Duarte tenta preencher. Mais que tudo, o filme me decepcionou na tentativa de compensar ousadias politicamente incorretas com uma estratégia de “proteção” dos atores/personagens através da montagem que elimina suas hesitações, da trilha sonora compassiva e edulcorada, e sobretudo do acúmulo de mensagens positivas que vão desde soltar passarinho até o letreiro final sobre superação. A meu ver, Ariel, Rita e Breno mereciam um projeto mais bem resolvido – como eles, aliás.

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