Nova York, Santiago, Tóquio

Alguns amigos vão continuar dizendo que estou azedo, intolerante, mas foi duro aguentar TRAPAÇA. Talvez eu já tenha visto filmes demais. Ou pelo menos filmes demais desse tipo: comédia de golpes dentro de golpes envolvendo aquela volúpia financeira que os americanos confundem com erotismo. O filme de David O. Russell é de uma vulgaridade massacrante que pode ser traduzida por uma câmera que parte das pernas descobertas de uma mulher e sobe até um copo de bebida e um maço de dinheiro. O resto é um permanente descaso para com a verossimilhança (sim, ela é necessária nesse misto de comédia e thriller) e para com a invenção visual. A verborragia de TRAPAÇA é para ser, no máximo, tolerada numa sessão de TV quando até a última transmissão esportiva já acabou. A cada vez que alguém repetia “Eu tenho um plano”, eu olhava meu relógio, impaciente. O charme e o humor são postiços, e se a gente curte as canções dos anos 70 é porque elas eram ótimas mesmo, muito antes de chegar a essa traminha chinfrim. No âmbito das interpretações, gostei de como Christian Bale não perde o protagonismo com a entrada do bonitinho (e só ísso) Bradley Cooper enquanto Jennifer Lawrence chega de mansinho para roubar inteiramente o brilho de Amy Adams. Isso sim, foi uma gostosa trapaça. 

GLÓRIA não podia ter outro título que não esse. Há tempos eu não via um filme tão centrado num só personagem. E não se trata apenas de ter a magnífica atriz Paulina Garcia em praticamente todos os planos, mas de focar toda a narrativa nas suas ações e reações. Daí quase não vermos o que ela vê, e pouco vermos seus interlocutores. Para o espectador, é um exercício constante de perceber tudo através dela, espelho sensível do que acontece ao seu redor. Como ela pouco fala, somos levados a apreender as coisas pelos seus olhares e expressões. A interiorização é tal que às vezes roça o limite da incomunicabilidade. Mas é aí mesmo que o belo filme de Sebastián Lelio se constrói: nas lacunas, na descontinuidade, no não-dito, na ambiguidade dos sentimentos reais. Ecos da era Pinochet, dos protestos e lutas estudantis atuais e de uma classe média proverbialmente não-participante chegam com sutileza à tona dessa crônica de uma mulher em luta contra a solidão. 

UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO é um remake bastante literal do clássico ERA UMA VEZ EM TÓQUIO. As atualizações são geralmente superficiais (GPS, trem-bala), mas uma alteração chama atenção. No filme de Ozu, o filho Shoji morreu há oito anos e quem assume os maiores cuidados com os velhos é a nora viúva, Noriko (Setsuko Hara). No filme de Yamada, quem tem essa função é o próprio Shoji, um jovem e cool construtor de cenários para teatro. Noriko é só uma namoradinha iniciante, mas que logo conquista o afeto dos velhos. É como se fosse o início da relação do casal que no filme de Ozu já estava desfeito. Isso provoca uma inversão curiosa: em Ozu, é a nora mais madura quem dá dinheiro à sogra, enquanto em Yamada acontece o contrário. Outra torção temporal no novo filme, ao menos para mim, foi a sensação de que os pais, mais alquebrados que no longa de Ozu, teriam vindo de 1953 para visitar os filhos em 2013. A defasagem, originalmente de faixa etária e valores culturais, agora soa como um abismo entre os dois filmes. Entre as criações de Yamada, achei um pouco esquemático que os filhos ligados a profissões do corpo (médico, cabeleireira) sejam os mais solertes, enquanto o filho e a futura nora, vinculados ao mundo da cultura, sejam os mais sensíveis e carinhosos. Quanto ao estilo de filmar, é interessante que Yamada não tenha optado pela imitação, mas por um estilo clássico mais neutro, apenas com esparsas referências à maneira de Ozu filmar as perspectivas dos interiores das casas e alguns planos-almofada entre as sequências. 

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