Perspectivas sobre o 3D

Assisti ontem (quinta) à derradeira sessão de 3 X 3D antes que saísse de cartaz no Cinesesc. Nesse tríptico de curtas encomendado pela cidade portuguesa de Guimarães para comemorar sua condição de capital cultural europeia de 2012, cada diretor convidado encarou o 3D de uma maneira bem particular.

Peter Greenaway, em Just in Time, viu no recurso um ingrediente a mais para seu barroquismo digital delirante. Igrejas, claustros, museus e ruas da cidade são percorridos por longos travelings, passando por figurantes paramentados e muralhas e cortinas de textos que falam de personagens da história de Guimarães. O efeito é de uma enciclopédia folheada tão rapidamente que você não consegue reter quase nada. Mas é visualmente deslumbrante e leva a virtualidade do 3D a seus limites de expressão.

A prata da casa ficou com Edgar Pêra, cineasta dado a ousadias, mas que aqui se limitou a um exercício caricato sobre a fenomenologia do espetáculo cinematográfico. Entre a tela e a plateia de um velho cinema de Guimarães, um apresentador discorre acerca dos efeitos do cinema sobre o espectador e as grandes transformações nessa relação ao longo da história. Desde os homens da caverna, por sinal. Com humor claudicante, o curta Cinesapiens derrapa num uso repetitivo da tridimensionalidade, explorando principalmente os braços e mãos dos atores estendidos na direção do público. Pêra viu o 3D como um objeto de chacota.

Por fim, Os Três Desastres traz mais uma colagem do venerando Jean-Luc Godard, um pouco na linha do seu História(s) do Cinema. Como sempre entre a anedota intelectual e a máxima filosófica, ele trata a tridimensionalidade como algo inerente ao cinema desde sempre. É claro que não se importa muito com o 3D em si, nem muito menos com Guimarães. Seu material são os arquivos: cenas de filmes 2D que exploravam as perspectivas; cenas 2D reformatadas para um falso 3D e trechos de filmes recentes em 3D mesmo. No áudio, quase todo com sua voz, ele rumina ideias provocativas sobre o acaso, o destino da humanidade e a enrascada em que teríamos caído com a “ditadura” do digital.

O virtuosismo estético de Greenaway, a veia farsesca de Pêra e a ironia militante de Godard estão longe de formar um conjunto harmonioso, mas falam bastante das características de cada diretor e deixam um comentário polivalente sobre o uso da tecnologia. Se me perguntarem a conexão entre a vetusta Guimarães, berço de Portugal, e essa encomenda exótica, eu diria que é a ênfase no contraste entre o passado remoto e o contemporâneo de ponta. Mas será que isso basta?

5 comentários sobre “Perspectivas sobre o 3D

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  4. Vejo com muito entusiasmo as críticas que escreves, Carlos. Aqui em Manaus tenho atuado com alguns comentários críticos em cinema, teatro e dança, – áreas que passeio com certo desembaraço e profundo amor – haja vista a ausência de críticos de qualquer tipo, seja amador ou profissional, por aqui. Infelizmente os filmes que criticas não chegam por aqui, e as 50 salas de cinema de Manaus só passam filmes comerciais. Por milagre um “Ninfomaníca” apareceu. No mais, fico na expectativa. E espero vê-lo novamente por aqui. Um abraço.

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