Notas do Ceará (3) – Curtas, Welles, etc

Pelo que já vi e tenho ouvido, a safra de curtas do 25º Cine Ceará está deixando muito a desejar. Não pude ver Quintal, de André Novais, objeto dos poucos elogios que escutei por aqui. Assisti a uma curiosidade baiana chamada Feio, Velho e Ruim. Em breves oito minutos, o diretor Marcus Curvelo interpreta o personagem Joder, que conversa com o seu celular. Em três momentos, ele trafega do autoelogio à completa autoderrisão, passando por uma típica conversa com uma atendente de call center. Nada de extraordinário, mas por contraste com a apatia criativa de outros curtas, pelo menos faz contato com a plateia. Destaco também o curta cearense Silêncio, de Armando Praça e Janaína Marques, um sugestivo exercício de suspense em torno de um casebre no sertão. O bom uso do som e do formato panorâmico conferem personalidade e interesse ao filme.

Três curtas de Chema García Ibarra estiveram numa sessão da mostra Novo Cinema Espanhol. Fiel ao ideário da ficção científica, mas numa chave de sátira do cotidiano – lembrando às vezes Ed Wood –, Chema tem um estilo lacônico e irônico, baseado em narrações off e composições estáticas. O curta mais recente, Mistério (2012), o primeiro em cores, tem um atrativo a mais, pois associa a ficção científica à crendice religiosa. Os personagens centrais são uma mulher que espera ardentemente o dia em que será abduzida por extraterrestres e um rapaz conhecido por dar a ouvir a Virgem Maria a quem encostar o ouvido no seu pescoço.

Os curtas de Chema García antecederam com propriedade a exibição de Simão do Deserto. A desaforada parábola de Luís Buñuel sobre fanatismo religioso, tentação demoníaca e castigo eterno (este representado por um interminável baile de iê-iê-iê em 1965), muito embora tenha sido feita no México, está na matriz desse cinema espanhol irreverente com as tradições místicas do país. É o cinema que fazem Chema e o diretor do curta A Paixão de Judas, que comentei aqui dois posts atrás.

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No capítulo dos pequenos reparos a fazer ao Cine Ceará está a exibição em DVD de Simão do Deserto, quando se esperava uma bela cópia em película restaurada. Registre-se também as condições acústicas do Cine São Luiz, que, embora melhores que antigamente, continuam soando como vozes perdidas numa catedral. Faltam foco e nitidez ao som, item que parece não ter merecido a devida atenção durante a bela reforma arquitetônica.

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Fisgado de última hora para a mesa, participei de uma conversa ontem com críticos da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) sobre os 100 anos de Orson Welles e, mais especificamente, sua passagem pelo Ceará nas filmagens de It’s All True. Maria do Rosário Caetano, Neusa Barbosa, Luiz Zanin e eu lembramos os rastros que Welles deixou no cinema brasileiro, seja levando para as telas a imagem do povo (sambistas, negros, favelados, jangadeiros nordestinos), seja inspirando futuros cineastas ou mesmo fascinando outros, como Rogério Sganzerla. Particularmente no Ceará, a estada de Welles instalou uma certa mitologia de dupla face: de um lado, a tragédia do jangadeiro Jacaré, que morreu num naufrágio durante as filmagens que reconstituíam a jornada dos pescadores até o Rio para fazer reivindicações ao presidente Getúlio Vargas; de outro, os ecos das filmagens em Fortaleza e da convivência do cineasta americano com cearenses de várias classes sociais, registradas para sempre nas fotos de Chico Albuquerque.

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