Notas do Ceará (4) – na Galícia e na Etiópia

Idiomas menos comuns foram ouvidos no Cine Ceará ontem (terça). A começar pelo basco no média-metragem As Mais Macabras das Vidas, de Kikol Grau. Pude assistir somente ao terço final desse doc sobre a banda punk superpolitizada Eskorbuto, de Bilbao. Deu para ver que o filme incorporava o quanto podia a estética punk, com pouca preocupação de explicar ou historiar o trabalho do grupo. E deu para ouvir que o basco, de fato, não se parece com nenhuma outra língua.

Menos exótico é o galego com que se expressam os personagens de Costa da Morte, prestigiado doc de Lois Patiño rodado numa região particularmente agreste do litoral da Galícia, norte da Espanha. O galego se situa em algum ponto entre o espanhol e o português, mas sem nada a ver com o portunhol. É um idioma rústico, um tanto difícil de entender para luso e hispanofalantes. Rústica também é a natureza do lugar, com seu mar bravio e rochas escarpadas. O filme registra a dura faina dos homens para retirar a sobrevivência desse ambiente, assim lembrando o seminal O Homem de Aran, de Robert Flaherty. A derrubada de árvores, a pesca de mariscos e a extração de pedras se alternam com flashes de uma pequena aldeia, seu cemitério, suas festas populares e a batalha contra os incêndios na mata.

Apresentado como “documentário experimental”, Costa da Morte me bateu como um filme contemplativo e guiado mais pela beleza das composições de quadro do que por qualquer elaboração conceitual ou fluxo narrativo. As paisagens grandiosas deixam a figura humana num plano distante e minúsculo, mesmo quando as pessoas estão conversando plugadas com o microfone sem fio. Somente um homem aparece em plano próximo, um sineiro, assim mesmo tendo o tronco e a cabeça encobertos pelo sino. Essa opção pelo afastamento e pelo plano geral resfriam um pouco o filme e o faz estender-se para além de três ou quatro finais anunciados.

As histórias que ouvimos sobre naufrágios na região trazem um aspecto de mito sobre esse canto de mundo. Segundo uma dessas histórias, quando um navio naufragou com milhares de latas de leite condensado, item até então desconhecido no lugar, a população usou o material para pintar suas casas de creme.


O amárico, idioma oficial da Etiópia, descendente de uma língua extinta, é outro que soa muito particular aos nossos ouvidos: alguma coisa entre o turco, o árabe e o finlandês, se é que me faço compreender. Aqueles sons combinaram muito bem com a estranheza da história contada pelo diretor mexicano Miguel Llansó. Crumbs se passa na paisagem ora lunar, ora pós-apocalíptica da Etiópia rural, não identificada como tal. Houve uma grande guerra que dizimou a maior parte da população terrestre e uma nave espacial está pairando sobre aquele lugar. O pequeno e fisicamente deformado Candy (o carismático Daniel Tadesse) acredita ser de outro planeta e, como o E.T. de Spielberg, deseja ardentemente fazer a viagem de volta. Para isso terá que deixar a amada Birdy (Selam Tesfaye, ótima) e empreender uma jornada de herói. Passará por uma bruxa, nazistas fora de contexto, leões e outros obstáculos até chegar a quem poderá realizar seu sonho: ninguém menos que Papai Noel.

A aventura é levada em tom de paródia, com diveras referências a ícones pop do século XX, então reverenciados como peças mitológicas ou de culto. Os cenários são em sua maioria compostos de sucatas, trens e monumentos depauperados. Por tudo isso, Crumbs guarda um parentesco curioso com o nosso Branco Sai. Preto Fica, mas sem termos de comparação quando se trata de vigor referencial e político. Crumbs monta uma situação instigante, mas peca no desenvolvimento plano, sem relevo ou salto que atenda às expectativas criadas. As citações paródicas logo se mostram ingênuas e inofensivas, enquanto o nosso herói corcunda caminha entre o desejo de viajar e a possibilidade de amar.

Miguel Llansó e Daniel Tadesse estão juntos também no curta Chigger Ale, exibido na Mostra do Novo Cinema Espanhol. Aqui, Daniel faz um estranho clone de Hitler apaixonado por Beyoncé e Cristiano Ronaldo. As fixações de Llansó comparecem: boliche, naves e viagens espaciais. O que posso dizer é que o tamanho curto faz bem ao seu humor fora de esquadro.

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