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A primeira transa e a primeira viagem ao exterior a gente nunca esquece. Estela, a protagonista de CALIFÓRNIA, está à espera das duas coisas no ano de 1984, época de Diretas Já, vinis de Bowie e The Cure, mural de cortiça, bailes com Blitz, telefone com fio e amigos com Aids. Para a transa, ela oscila entre duas opções disponíveis na escola. Para a viagem, aguarda a oportunidade de ir ter com um tio bacana que mora na Califórnia. Nada, porém, vai acontecer – se acontecer – do jeito que ela esperava. Depois de fazer “Person”, um documentário sobre seu pai, o cineasta Luís Sérgio Person, Marina se voltou para elementos autobiográficos na sua estreia ficcional. CALIFÓRNIA trata com sutileza e propriedade das expectativas, desejos e medos que se digladiavam na cabeça de uma adolescente naquele tempo, às voltas com as pressões familiares e da convivência social. Clara Gallo e todo o elenco se conduzem de maneira inteiramente plausível, o que é raro de se ver em filmes brasileiros sobre a juventude comum. O trio de amigas, em especial, tem uma interação de muita veracidade. Os diálogos cabem direitinho na boca dos personagens e o aproveitamento da música do período é uma delícia à parte. Não precisou mais que dois filmes para Marina Person se mostrar uma cineasta ao mesmo tempo jovial e madura.


Em DOIS AMIGOS, temos três atores em cena. A gracinha iraniana Golshifteh Farahani oscila entre as duas faces de sua personagem, uma jovem mortificada por cumprir pena em regime semiaberto e um animal sensual quando ela permite soltá-lo. Vincent MacCaigne, o melhor do trio, vive o apaixonado patético, protagonista único de uma comédia de amour fou. Louis Garrel, que também dirige o filme, bem, esse faz o que está acostumado a fazer diante da câmera: posa de rapaz enfastiado, sempre com cara de quem acabou de acordar. Nada de imprevisto acontece nesse triângulo amoroso, a não ser a estranheza de que ele sequer chegue a acontecer pelos dados que nos são fornecidos. Trata-se de um encontro de desencontrados, mas é justamente disso que o filme tira seu charme discreto. Na condução da história, Garrel usa um estilo morno e delicado que confere com o seu jeito de representar. Pena que, no fundo da xícara, o desenho que fica é o velho chavão da amizade masculina perturbada pela intrusão de uma mulher.


SABOR DA VIDA deixa os fãs de Naomi Kawase numa situação delicada. O filme, seu primeiro baseado num livro alheio, traz à superfície um sentimentalismo que esteve sempre subjacente à sua obra, mas dissimulado por camadas de sutileza, poesia e melancolia. Dessa vez, porém, nem as belas imagens de cerejeiras em flor, nem a doçura da fotografia conseguem disfarçar o aspecto de “arranca-lágrimas” tipicamente japonês. Naomi se avizinha de dois filões comerciais do momento: o elogio da terceira idade e as metáforas culinárias. A idosa que tem mãos mágicas para preparar a pasta de feijão, o homem que gerencia a lojinha de panquecas e a adolescente que a frequenta formam uma espécie de família emprestada, cada qual com suas agruras para compartilhar. O tema da lepra, que a princípio parece destinado a quebrar a harmonia desse encontro, acaba sendo absorvido pelo discurso apaziguador e aveludado, ao toque de um piano New Age e de mais cerejeiras em flor. Não ficamos livres nem mesmo das dualidades tradicão-modernidade e artesanal-industrial. Quando substituída a pasta de feijão enlatada pela similar feita em casa com carinho e paciência, é como se as cerejeiras novamente florescessem – e a doçura começasse a enjoar.


Quando as boas intenções não vêm acompanhadas de uma boa dramaturgia, tudo fica somente nas intenções. É o que, a meu ver, acontece com TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS (não me conformo com a falta do artigo “o” depois de “tudo” nesse título). Inspirado na peça “Acorda, Brasil”, de Antonio Ermírio de Moraes, o filme de Sérgio Machado conta com nomes da pesada envolvidos no roteiro, como Maria Adelaide Amaral, Marcelo Gomes e Gabriela Amaral de Almeida, além do próprio Sérgio. Será que ninguém percebeu que os contrastes são carregados demais? Laerte é tenso e estressado na Osesp e relaxado com os meninos da orquestra de periferia. Estes tocam e se comportam exageradamente mal no início para fazerem tudo exageradamente bem no final. O hip hop ligado à bandidagem e a música clássica relacionada à redenção se chocam o tempo todo para se unirem apenas no belíssimo rap sinfônico dos créditos finais. Ninguém notou que a evolução da Sinfônica de Heliópolis não se faz sentir como algo progressivo e árduo? Ou que todos os conflitos e situações são expostos didaticamente? Ou, ainda, que a protonamorada de Laerte entra e desaparece de cena sem repercutir em nada? A previsibilidade de tudo, dentro de um certo padrão paternalista de comunidade-entre-a-violência-e-a-sensibilidade, compromete bastante o resultado de um filme bem resolvido como técnica e produção. A atuação plana de Lázaro Ramos não ajuda muito a dar relevo humano ao que se vê na tela.


Na primeira cena de O CHEIRO DA GENTE, o diretor Larry Clark, no papel de um mendigo, está jogado no chão de uma pista de skate enquanto os garotos saltam arriscadamente por cima do seu corpo. Uma ideia de crueldade e autodestruição logo se forma na mente do espectador. O resto só confirma o cinema doentio e anárquico do autor de “Kids”, “Bully” e “Ken Park”, um especialista na crônica de adolescentes perdidões. Esse filme se distingue por ter sido rodado na França e tratar de garotos de programa, colocando-os em contato com clientes idosos e pervertidos. Numa sequência que traz à memória “Laranja Mecânica”, o angelical Math dopa seu cliente com soníferos e chama os amigos para uma festa destruidora na casa dele. Há cenas explícitas de penetração gay, assédio incestuoso, podofilia repugnante, incontinência urinária e taras olfativas. Mas nada aqui é erótico, é apenas agônico. Interpretado por Lukas Ionesco, filho de Eva e neto de Irina Ionesco – que causou escândalo com as fotos da filha nua ainda impúbere –, o personagem Math sintetiza bem o tipo de jovem retratado por Larry Clark: apático, afásico, desprovido de qualquer sonho ou projeto. Bem de acordo com o tipo de narrativa empregado, composto mais por vinhetas esparsas que por cenas arrematadas. O lastro documental vem da vivência real dos atores e é replicado dentro do filme através de um personagem que filma obsessivamente o cotidiano mais íntimo dos amigos com seu celular. A Cahiers du Cinéma cheirou emoção na parada. Eu não chego a repudiar, mas vejo aquilo como sintoma de um niilismo não apenas existencial, mas também cinematográfico.


Sobre LA ISLA MÍNIMA (recuso-me a usar o absurdo título brasileiro “Pecados Antigos, Longas Sombras”): Em 1980 a Espanha estava engatinhando na democracia, mas os fluidos do franquismo ainda estavam densos no ar. Esse cenário político é um tênue pano de fundo para o filme de Alberto Rodríguez, premiadíssimo na Espanha no ano passado, inclusive com dez Goyas. Alguns grafites e notícias na TV dão conta dos riscos de recrudescimento, enquanto um dos personagens centrais deixa seu passado de torturador transparecer no ofício atual. Ele é um dos dois detetives designados para investigar o desaparecimento de duas irmãs nos pântanos de Guadalquivir, um labirinto de rio e charcos na Andaluzia. A dupla demonstra um extraordinário talento para ser surpreendida pelo vilões que estão tocaiando. Com pouco trabalho de roteiro, poderiam se transformar em policiais trapalhões de comédia. Mas seu trabalho será facilitado por uma sucessão de chavões das histórias de serial killer: pistas encontradas com notável facilidade, colaboradores que confessam tudo à primeira ameaça ou chantagem emocional, suspeitos descuidados com seus movimentos na amplidão escancarada do lugar. A doença aparentemente grave que afeta um dos policiais, o vínculo do outro com a família distante e a relação dos crimes com o tráfico de drogas são alguns dos ingredientes que ficam perdidos na trama, como se estivessem ali somente para tornar o labirinto aparentemente mais intrincado. Não compreendo a grande admiração em torno de um filme que, apesar da empostação das cenas e da boa fatura artesanal, é no fundo completamente rotineiro e às vezes bastante implausível.