Tags

,

Em iniciativa, creio eu, inédita no cinema brasileiro, Murilo Salles está lançando esta semana três filmes ao mesmo tempo. O título da ficção, O Fim e os Meios, poderia ser uma marca geral para os três. Os documentários Aprendi a Jogar com Você e Passarinho Lá de Nova Iorque também tratam de casais tentando ganhar a vida e enfrentando as atribulações de seu ofício. Mas, de resto, os docs são profundamente diferentes da ficção, como se partissem de cineastas distintos.

O Fim e os Meios tem a elegância de direção e os cuidados de produção com que estamos habituados nos trabalhos de Murilo. É filme sobre a classe média em busca de ascensão. Cris (Cíntia Rosa), jornalista com ideais de independência, e Paulo (Pedro Brício), publicitário atento a oportunidades, formam um casal interracial que se muda do Rio para Brasília e se vê envolvido com um clã político do Nordeste. A trama é razoavelmente previsível, com personagens bem intencionados que se deixam corromper pela máquina abusiva da política. Uma corrupção que passa não apenas pelo dinheiro e o poder, mas também pela fixação sexual.

O que diferencia o filme de outros que já abordaram o assunto – como Brasília 18% e Doces Poderes – é a maneira pouco usual de narrar. O roteiro é construído à base de elipses bem ousadas, exigindo do espectador um constante reajuste de seu GPS mental para preencher os vazios. A originalidade do olhar de Murilo, sempre oblíquo e nunca óbvio, se manifesta, por exemplo, num diálogo crucial entre Cris e Paulo, quando tudo o que vemos são as mãos deles banhando o bebê. Essa economia de meios narrativos, na minha avaliação, cobra um preço no desenho da convivência do casal e sobretudo na evolução da personagem feminina, cujas condutas divergentes não se afinam de modo muito plausível.

A estreia de O Fim e os Meios se dá num momento tristemente oportuno, quando o odor dos escândalos em Brasília ameaça nos sufocar. O filme pode ser visto como uma ilustração daquele grande folhetim político. Eis aí sua virtude e também sua possível limitação.

Os dois documentários focalizam produtores de arte da periferia às voltas com suas estratégias de trabalho e sobrevivência. Aprendi a Jogar com Você acompanha o DJ Duda e sua mulher, a cantora Milka Reis, durante a batalha por patrocínios para o carnaval de 2011 em Brasília. Passarinho Lá de Nova Iorque observa o cineasta piauiense Cícero Filho na preparação de seu longa Flor de Abril (2011), auxiliado pela mulher e a sogra. Em ambos os casos, temos uma câmera não interativa, que apenas registra os processos em situação de proximidade. Uma vez que a produção dos shows e CDs do DJ e empresário, assim como a dos filmes do cineasta, é sempre em escala doméstica, vale dizer que os docs captam a um só tempo o trabalho e a vida das duas famílias.

Esses dois filmes ostentam o selo “És Tu, Brasil”, oriundo de um doc anterior de Murilo. São retratos de famílias engajadas na produção cultural à margem dos grandes centros. Cícero Filho, responsável pelo estouro regional de Ai que Vida (2007), faz institucionais para a prefeitura de sua cidade e vende água de coco com a mulher para complementar o orçamento da casa. DJ Duda é visto ralando também como corretor de imóveis. O que os une não é, portanto, apenas o hit Ai que Vida, tema musical do filme de Cícero e música de trabalho do DJ. Há nos dois filmes uma unidade que ajuda a compensar as deficiências de cada um em particular.

Os docs são projetos de parceria de Murilo com jovens realizadores próximos a ele. Têm um aspecto rústico e improvisado que foge ao padrão da assinatura Murilo Salles, além de uma seleção de cenas que nem sempre sustenta o interesse pelo que se passa diante da câmera. Passarinho (foto ao lado), em especial, sofre de uma organização dispersiva das ações e de uma documentação com jeito de insuficiente. Afora as diferenças de ambientação entre os docs e a ficção, o paralelo entre os três lançamentos favorece a impressão equivocada de que a ficção é o lugar do capricho e da técnica, enquanto o documentário é domínio do ligeiro e do rudimentar. Não é por aí.