A bolha brilhante e a maçã insossa

Num diálogo crucial de A GRANDE APOSTA, o ex-investidor convertido ao ambientalismo repreende dois jovens aventureiros do mercado financeiro prestes a embarcarem na esbórnia de Las Vegas. Diz mais ou menos assim: “Vocês estão lucrando com uma catástrofe que vai levar muita gente à miséria, nos EUA e no mundo. Ok, fiquem ricos, mas pelo menos não dancem”.

O lance de antevisão da bancarrota bancária, que partiu de um viciado em investimentos e beneficiou um punhado de espertalhões, é uma história de sucesso em que não cabem comemorações nem finais felizes. Venceram o oportunismo e o cinismo, na lógica essencialmente capitalista da desgraça de muitos financiando a fortuna de poucos. O filme expõe esse mecanismo de maneira relativamente clara, mesmo que a gente não entenda os detalhes de moratórias, subprimes, swaps, etc. Os diálogos explicitam as jogadas sem soarem pedagógicos e as vinhetas de “explicação” com stripper, chef de cuisine e estrela pop fazem a sátira ao didatismo típico de filmes sobre temas áridos como esse.

Para um diretor identificado com comédias  populares como Adam McKay, se por um lado explicam-se a comicidade afiada e o sentido de entertainment, por outro surpreende a ousadia da narrativa. É muito estimulante a forma como ele usa o trabalho “documental” das câmeras, as descontinuidades, mudanças constantes de eixo, quebras da quarta parede e uma montagem que ora reproduz o fluxo mental dos personagens, ora injeta flashes velozes da realidade dentro do arcabouço ficcional. E nada disso soa gratuito, já que imprime na forma do filme o deslizamento célere das ideias, a arrogância e despudor das atitudes, a alienação fulgurante em que se formou a grande bolha do mercado imobiliário americano até o ploft de 2008.

Com atuações excepcionais do elenco – afora alguns maneirismos de Christian Bale – e uma edição eletrizante de Hank Corwin (montador de Terrence Malick e Oliver Stone), A GRANDE APOSTA radiografa com garbo a pornografia do capital.



Para ver STEVE JOBS eu juro que suspendi todas as razões pelas quais tenho ojeriza à Apple: o elitismo do sistema fechado e incomunicável, a transformação do consumo de uma marca em uma espécie de seita religiosa, o endeusamento do personagem pelos padrões do empreendedorismo americano. Entrei no cinema de alma aberta e HD disponível. O que encontrei foi um dos filmes mais aborrecidos e inúteis da temporada. Só mesmo um culto irracional ao universo Mac pode tornar suportável aquele homem falando sem parar entre o melodrama familiar soporífero e o jargão da indústria da informática. O propósito do filme é desmistificar Jobs enfatizando sua vaidade messiânica (compara-se com Deus e Julio César nos momentos mais humildes), seu déficit de afetividade (entre todos da empresa, ele é o que menos se importa com a filhinha que nem reconhece como sua) e a incapacidade de reconhecer os méritos do trabalho coletivo.

Tudo se passa no segundo ato de sua carreira, antes que o iMac e o câncer, já no século XXI, o catapultassem à condição de divindade. O resto, supostamente, todo mundo já sabe. Desde, claro, que se seja um fiel discípulo, capaz de destrinchar o cipoal de referências que, no meu caso, só fizeram me expulsar o tempo todo do filme. Discussões intermináveis e repetitivas invalidam qualquer esforço de humanizar o personagem, seguido sempre por uma Kate Winslet condenada a caminhar atrás dele discutindo como uma esposa iraniana. A premiação dela com o Globo de Ouro e as muitas indicações do roteiro adaptado são desses mistérios que o cinema americano não se cansa de me apresentar. Finalmente, se esse for considerado um bom merchandising para a Apple, então minha ojeriza estará plenamente justificada.

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