O herói e a gatinha

Livros de amigos – escrever ou não sobre eles? Como não sou crítico literário, cabe bem a pergunta. O que escrever além de comentários afetivos e cumprimentos de camaradagem? Quando ir além dessas formalidades?

Dois livros que li recentemente me estimularam a ir além. Os autores são amigos queridos e pessoas envolvidas com o cinema. Susana Schild, autora do infantojuvenil As Aventuras de Jajá (Rocco, 2016), é crítica e roteirista de filmes. David França Mendes, que lançou em 2013 O Herói Insone (Oito e Meio), já foi crítico e hoje é roteirista de sucesso em cinema e televisão. Mas não existe uma clara influência do cinema na linguagem literária de nenhum deles. O que mais me agradou nos dois livros foi a capacidade com que, cada um a seu modo, me proporcionaram um deslocamento da minha percepção de leitor para searas pouco comuns.

Falemos primeiro de O Herói Insone, livro de contos dividido em duas partes. Na primeira, “Saltos mortais”, David trata majoritariamente de casais em situações-limite. Os enigmas por trás de um beijo de despedida, o súbito irrompimento do amor num casal de amigos momentos antes de um terremoto, as suposições de um homem diante de uma suposta mulher que supostamente o olha de frente… Não há exatamente situações sólidas, mas devaneios, aventuras do pensamento, ficções mentais dentro da ficção, um autor que se multiplica através de seus personagens para chegar a um nível de alteridade às vezes alucinante.

Na segunda parte, em que explora a figura do “Herói” – melhor dizendo, as limitações de um certo super-herói na vida prosaica –, sem demonstrar qualquer pretensão David alcança o patamar do raciocínio metafísico. O herói ultrapoderoso não é capaz de proteger a namorada dos pesadelos dela, nem tampouco deixar de ser ele mesmo, supremo desejo de alteridade que esbarra no confinamento de todos os homens aos limites de sua pele e de sua consciência.

O Herói Insone me revelou um autor com dicção muito própria, dono de uma escrita fluente e saborosa que toca o cru e o sublime com a mesma naturalidade com que a gente vira as 86 páginas do livro.

Um pequeno trecho para ilustrar:

“Só que ela não aguenta mais certas coisas. Como, por exemplo, não se poder, não se cogitar sequer, que alguém possa parar diante de um estranho e olhá-lo docemente, como a um bebê que brinca com seu móbile enquanto o sono não o encontra no berço. É chato não poder amar um completo desconhecido. É chato como fazer a revisão do carro. Tão chato quanto achar chato fazer a revisão do carro. Sabe-se lá por que para ela o homem lendo o livro é como um bebê, e bebê todo mundo pode olhar com doçura e amor, mesmo que seja um total desconhecido – e que bebê não o é? -, e para um bebê pode-se ficar olhando e achando lindo, mesmo que ele não o seja – muitos não o são”.

Falemos agora de As Aventuras de Jajá, história ilustrada por desenhos de Mika Takahashi. A alteridade total é lançada já na primeira linha, quando uma gata engata a contar sua história em primeira pessoa. Jajá, inspirada numa das três gatas que Susana paparica em sua casa, é quem se recorda de como chegou até ali. As lembranças da bichinha têm lapsos como as de qualquer animal humano. Jajá rememora todo o estranhamento ao pular de um muro dentro daquele edifício e apartamento, onde é acolhida carinhosamente pela menina Luísa. O leitor acompanha a descoberta do mundo pela sensibilidade felina – daquela estranha pilha de degraus que compõe uma escada àquela coisa parecida com uma bolsa peluda que logo vai se revelar como um cachorro. É o romance de formação de Jajá.

Como demonstrado em seu trabalho jornalístico e nos roteiros de cinema, Susana tem o dom da história bem contada, recheada de observações agudas e detalhes espirituosos. Ao criar a percepção de Jajá em relação aos humanos e a outros animais, a autora combina sua própria e habitual perspicácia com o longo conhecimento da conduta dos gatos. O resultado é de miar de bom.

Uma pequena passagem para exemplificar:

“A Luísa é tão insistente que parece gato. Quando um gato bota uma ideia na cabeça, não tem jeito de tirar – pode até parecer chato (para os outros, é lógico). Isso porque um gato não desiste. De jeito nenhum. Nem por todo o leite do mundo. Se desistir, não é gato, pode ter certeza. A Luísa é assim. Felizmente.”

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