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Um filme de ficção talvez não desse conta das voltas que o mundo dá na história de real contada em MEU NOME É JACQUE. Esse cativante documentário de Ângela Zoé enfoca a transexual Jacqueline Rocha Côrtes, mãe de família e esposa devotada, mas não exatamente recatada ou do lar. Ativista dos direitos de soropositivos, com passagens pelo Ministério da Saúde e pela ONU, Jacque já foi aluna de Lennie Dale e teve vida louca de travesti antes de fazer sua cirurgia e mudar de vida. Carismática e inteligente, ela sidera o espectador ao contar sua trajetória pessoal e familiar, da inadequação na infância à plena realização na maturidade, passando por problemas cardíacos e a descoberta do HIV. Uma vencedora, em mais aspectos do que você possa imaginar.

Outras vozes se somam à sua: a dos três irmãos, um dos quais, hetero convicto, dá a justa (e divertida, emocionada) dimensão do acolhimento da família ao filho “especial”; e a do marido, seu primo, um cabeleireiro gay que encontrou em Jacque uma opção de amor inesperada. A particularidade do casal é um exemplo acabado dos encaixes surpreendentes que a diversidade sexual pode proporcionar. No pano de fundo, a lembrança de uma mãe admirável que empunhou o lema da compreensão e da liberdade.

O filme tem um roteiro de edição primoroso, que dinamiza os relatos orais com imagens sugestivas, intimistas, quando não deliciosamente metafóricas. Mas esse tratamento sensível e atencioso nada seria se Ângela Zoé, sua parceira Julia Zylbersztajn e equipe não tivessem diante de si formas de vida e pessoas tão inspiradoras.



Devo estar muito anestesiado, pois não vi graça nem poesia em O TESOURO. Corneliu Porombiou remói conhecidos ingredientes sobre o empobrecimento da Romênia pós-comunista, a burocracia apalermada, o jeitinho romeno de resolver pendências e as sombras do passado se alongando sobre o presente. O dado curioso aqui é o passado visto como oportunidade diante de um presente crítico. Dois vizinhos se empenham na busca de um tesouro supostamente enterrado num quintal. Duas surpresas aguardam quem alimentar expectativas mais corriqueiras quanto a histórias de tesouros enterrados.

As duas viradas, contudo, não me pareceram compensatórias para um filme marasmático em toda a sua extensão. O humor claudicante depende inteiramente dos diálogos banais, interpretados de maneira apática pelos atores e filmados sem qualquer dinâmica ou pretensão formal. Como os detectores de metais que vasculham lenta e metodicamente cada centímetro do terreno, as cenas se arrastaram diante de mim sem chegar a nenhum tesouro no final.



Uma cidade pequena é aterrorizada por um serial killer cujas vítimas são ruivas e recebem um escaravelho pelo correio antes de serem assassinadas. O ESCARAVELHO DO DIABO é uma razoável tentativa de conciliar comédia, suspense e terror adolescente. É bem narrado, apesar dos clichês, tem uma boa direção de arte e elenco correto. O que não dá pra engolir é que um filme para a garotada apresente com destaque, em duas sequências diferentes, a placa “Bem-vindo à Vale das Flores”. A boa nota em gramática cinematográfica é ofuscada pelo zero em gramática da língua.



Sergio Rezende foi rápido em oferecer seu comentário sobre os acontecimentos recentes. EM NOME DA LEI é um elogio bem pouco dissimulado à ação do juiz Sérgio Moro. A ação é deslocada de Curitiba e da área petrolífera para a fronteira do Brasil com o Paraguai e o tráfico de drogas. De resto, o que se vê é um juiz alto, branco e bem apanhado (Mateus Solano), pessoalmente obcecado em mandar para a cadeia o chefão do tráfico, o “Padrinho” Gomez (Chico Diaz). Para tanto, ele não hesita em grampear suspeitos, extrapolar suas funções, fazer parceria com uma revista de São Paulo e correr o risco de azedar a investigação por imprudências, precipitações e um certo exibicionismo. Mas o juiz Victor, na verdade, é o justiceiro incorruptível que consegue mobilizar os lerdos e endireitar os corruptos. Ainda por cima, é bonitão, conquista a bela procuradora (Paolla Oliveira) e demonstra perícia também no uso do revólver.

Para quem suportar essa mistificação canhestra de um personagem de policial americano de quinta categoria, o filme tem a oferecer um artesanato razoável e uma noção de ritmo característica da tarimba do diretor. E ainda o trabalho sempre aplicado de Chico Diaz, que consegue dar densidade ao único personagem interessante. Mas as pedras difíceis de engolir se atravancam na garganta. Entre elas estão a inadequação de Solano a papéis que envolvam ação e a artificialidade de sua relação com Paolla. Em resumo, o filme é uma mentira de fio a pavio. Uma operação fadada ao rápido esquecimento.