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Para o encontro com uma grande beleza, às vezes é recomendável não apegar-se ao sentido. Ou pelo menos ao sentido como algo exterior à própria beleza, uma suposta camada mais nobre e subjacente à forma das coisas. Há ocasiões em que o sentido está na beleza mesma, colado a ela como a pele à carne. É o caso de Exilados do Vulcão.

Justo vencedor da competição de ficção do Festival de Brasília de 2013, o filme de Paula Gaitán sugere a opinião apressada de que é um filme apenas muito bonito, mas sem sentido coerente. Afinal, não temos uma narrativa sequencial, mas um mosaico de micronarrativas ligadas por um fio ficcional tênue: uma mulher (Clara Choveaux) folheia o diário de um ex-amante (o italiano Vincenzo Amato) e percorre lugares por onde ele, fotógrafo, andou. Entre a introspecção, as ruminações e a exposição do corpo às experiências do caminho, o percurso da moça se abre num prisma, pelo qual ela vê e se confunde com outras mulheres da vida daquele homem (Simone Spoladore, Bel Garcia, Lorena Lobato, Maíra Senise, Ava Rocha). Ou seja, nada suficiente para satisfazer a quem procura causa e efeito, linearidade e coisas do tipo. Cada sequência parece se esgotar em si mesma e em sua excelência formal. É nessa instância do fragmento que se deve procurar as pepitas enterradas, assim como o adivinhador de água perscruta cada metro quadrado do solo, e não o terreno inteiro de uma vez.

Exilados do Vulcão é um filme cinzelado plano a plano, como um afresco que se restaura em minúcias. A fotografia do peruano Inti Briones é em grande parte responsável pela concretização em imagens das ideias de Paula. As composições impecáveis, os movimentos de câmera e sobreposições magnetizantes, as fulgurações de luz, tudo isso nos coloca em permanente estado de enlevo. Uma recorrência gramatical que adquire ressonância maior dentro do filme são as panorâmicas que se deslocam numa certa direção e retornam ao ponto inicial, agora modificado. Vejo nessa figura de linguagem a representação da busca da mulher pelos ecos de um amor que não mais subsiste nos lugares mesmo onde um dia floresceu. Ou, ainda, como na hipótese mencionada na primeira sequência, a impossibilidade se de viver uma outra vida sem se esquecer da anterior.

Mas a beleza do filme, sua incrível harmonia estética, não estão somente na qualidade das imagens, aspecto mais óbvio à primeira vista. A montagem e o desenho de som (a cargo de Paula e Fábio Andrade), além da marcante trilha musical, acrescentam camadas de significação e pathos a essa iconografia da perda, seja pela combinação do móvel e do estático, seja pelas intervenções da paisagem sonora ou de silêncios inquietantes. As locações em Belo Horizonte e áreas de mineração em Minas agregam uma espantosa concretude à saga espiritual da protagonista, valorizando o contraste entre pedra e corpo, máquinas e músculos, os prédios encardidos de BH e o caráter diáfano das deambulações da mulher.

Nessa livre e volátil transposição do livro Sobre a Neblina, de Christiane Tassis, Paula Gaitán esparge diversas referências pelo espaço visual e sonoro. O Estrangeiro de Camus, a videoarte de Bruce Nauman, o cinema de Kiarostami e Antonioni são algumas delas. Ainda assim, o filme é dominado pelo vocabulário da própria diretora. Lá estão o diário, as fotografias postas em situação perante personagens e Natureza, as transparências e coisas entrevistas, os gestos interrompidos, a ênfase nas mãos, a busca de texturas que confiram ao quadro um diferencial plástico mais ligado às artes visuais que à indexação realista do cinema.

Blues audiovisual, Exilados do Vulcão traz a um ponto culminante a pesquisa de Paula Gaitán na seara do filme-ensaio fronteiriço às artes plásticas. Mas não é só isso. Alarga também um interesse autoral pelo retrabalho do luto (Diário de Sintra), dissolvendo a dor num amálgama de memória, redescoberta e disponibilização de si para o mundo. A avalanche de sensações que esse filme pode causar tem pouquíssimos paralelos no cinema brasileiro contemporâneo.