Na mira do Oscar: “A 13ª Emenda”

02-13th-netflix-documentaryAva DuVernay é hoje a maior celebridade afro-americana do cinema nos EUA. “Selma”, seu longa anterior sobre a épica marcha liderada por Martin Luther King no Alabama em 1965, passou raspando pelos principais prêmios da temporada de 2015. Agora, com o documentário A 13ª EMENDA (13th), disponível no Netflix, ela está na corrida pelo Oscar de melhor longa documental. É o tipo de filme que agrada aos liberais americanos e irrita os eleitores de Donald Trump. E nem era para ser assim.

Num amplo dossiê histórico e analítico, a questão racial é colocada como central para se pensar a sociedade e as estruturas de poder americanas. Daí que o filme não faça distinção entre democratas e republicanos. O democrata (branco) Bill Clinton, por exemplo, é acusado de dar prosseguimento à mesma política de encarceramento em massa executada pelos republicanos Nixon e Reagan.

A 13ª emenda da Constituição americana aboliu a escravidão, “exceto como punição para o crime”. Isso abriu caminho para a escravidão penitenciária, em que os presos têm seus direitos humanos abolidos e servem de mão de obra para grandes corporações numa parceria escandalosa entre os setores público e privado. O sistema carcerário privatizado, em voga atualmente, depende de um número grande de presidiários para se manter lucrativo. Esse é apenas um exemplo da conjunção de interesses entre grandes corporações e o Congresso americano, que nutre uma organização viciosa como a ALEC – American Legislative Exchange Council.

Ava DuVernay nomeia abertamente empresas e entidades que desde sempre contribuíram para uma ideologia de criminalização e estigmatização, cujas vítimas mais numerosas são negros e latinos. O cinema tampouco sai inocentado, uma vez que o ódio racial foi potencializado pela tristemente clássica figura do negro como monstro estuprador em “O Nascimento de uma Nação”. A 13ª EMENDA quer mostrar como esse estereótipo se eternizou, inspirando ainda hoje o ideário da supremacia branca americana. E conclui com um elogio do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

A imensa relevância desse filme só é um pouco prejudicada pelo excesso de cabeças falantes e o formato limitado à intercalação de depoimentos e cenas de arquivo. As informações se sucedem em ritmo acelerado e sem pausas, desafiando a nossa capacidade de apreensão e reflexão. É o preço que se paga pela ambição de expor todo um sistema de pensamento e de ação política na exiguidade de um longa-metragem.

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