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Não tenho isenção suficiente para analisar melodramas que envolvem adoção, retorno às origens e procura pela família biológica, especialmente quando esta é humilde, os atores são excelentes e a música é de cortar o coração. Assim é LION – UMA JORNADA PARA CASA, que concorre a seis Oscars, incluindo melhor filme, roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora. Nunca imaginei que fosse chorar diante de imagens do Google Earth, ferramenta utilizada por Saroo na Austrália, aos 30 anos, para localizar a casa de sua infância nos confins da Índia.

O filme de estreia do diretor de publicidade Garth Davis não economiza recursos para comover. Na primeira metade, o pequeno Saroo se desencontra do irmão mais velho e vagueia perdido pela caótica Calcutá, escapando por pouco de diversas armadilhas até ser adotado por uma bondosa família australiana. Na segunda metade, “Salam Bombay” meets “E.T.”. O rapagão Saroo põe em risco casamento, família adotiva e saúde mental na busca obcecada de se reconectar com os parentes sanguíneos. É quando o filme abusa um pouco das ressonâncias sentimentais entre presente e passado: ecos visuais, rimas entre os dois tempos e muita música comovente.

Tudo pode ser bastante fiel à história real de Saroo, como se pode ver por esta matéria de 2012 num jornal australiano. Mas o tratamento melodramático pode ser medido pelo embelezamento físico dos personagens em relação aos originais. Carisma, no caso, é tão fundamental quanto os mapas do Google, e isso é o que têm de sobra o menino Sunny Pawar e Dev Patel (“Quem Quer Ser um Milionário?”). Não entendo por que Patel concorre como ator coadjuvante, já que os dois são os verdadeiros protagonistas (o filme não tem, portanto, atores principais).

O fato é que, afora a jornada do herói, não há personagens nem ingredientes interessantes. Nicole Kidman concorre a atriz coadjuvante com uma performance densa no pouco que lhe é dado aparecer. De resto, cada um se relaciona com o filme segundo sua vulnerabilidade ao tema e à forma de abordagem. Mas todos precisam esperar até os letreiros finais para saber por que se chama LION.



Já vi quatro dos cinco filmes indicados para o Oscar de filme estrangeiro, e cada vez me parece mais fácil para “O Apartamento” ou “Toni Erdmann”. O sueco UM HOMEM CHAMADO OVE tem grandes chances de ser um dos mais fracos indicados de toda a história do Oscar. Chega a ser espantoso que tenha vindo até aqui depois de ganhar o prêmio de melhor comédia dos European Film Awards. E ainda concorre em maquiagem e cabelos por um trabalho de perucas e carecas às vezes vergonhoso.

Ove é um viúvo recente, zelador irascível da ordem no condomínio onde mora. Demitido do emprego na fábrica depois de 43 anos de trabalho, ele resolve se matar. Claro que tudo dá errado, e Ove tem a oportunidade de relembrar como se transformou de um jovem operário abobalhado em herói doméstico e posteriormente num senhor amargo, personificação extremada dos rigores calvinistas e luteranos. Mas eis que a chegada de novos vizinhos vai produzir transformações em sua vida. Um prato de arroz com açafrão iraniano e um abraço de crianças podem operar milagres. O filme de Hannes Holm se dedica, então, a mostrar como Ove aprendeu a tolerar (e até amar) todo tipo de “diferentes”: imigrantes, homossexuais, crianças e animais domésticos. Afinal, também os ursos sabem sorrir e chorar.

As intenções humorísticas se limitam aos clichês do velho intolerante, tentativas de suicídio previsivelmente frustradas, rivalidades pueris e pequenos choques culturais tão previsíveis quanto a própria rotina do subúrbio sueco. A comédia se casa mal com um drama romântico-trágico entre Ove e sua esposa de sorriso e atitude insuportavelmente angelicais. Com direito, ainda, ao enfrentamento de burocratas pérfidos e impiedosos. A pieguice, a obviedade e a mediocridade da filmagem são dolorosos.