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Sobre LIFE, ANIMATED, indicado para documentário, e LAND OF MINE, candidato a filme estrangeiro

No último Festival do Rio saí com uma ótima impressão de LIFE, ANIMATED, um dos indicados ao Oscar de longa documentário. O filme de Roger Ross Williams enfoca a trajetória de Owen Suskind, um rapaz autista que conseguiu integrar-se no mundo através dos filmes da Disney. Dito assim, pode parecer meloso ou de interesse institucional. Mesmo porque somente a grife Disney participa do processo. Mas os detalhes do caso cuidam de desfazer essa impressão.

A família de Owen tem uma longa história de admiração pelos filmes da Disney, a ponto de o irmão de Owen se chamar Walt. Todos dotados de voz peculiar, eles soam como uma convenção de dubladores quando reunidos à mesa do jantar. Owen saiu de sua concha autista pela primeira vez a bordo da frase “Just your voice”, ouvida em “Aladdin”. Quando começou a vivenciar situações correlatas às de diversos filmes da coleção de VHS da família, seu pai – o produtor, ator e escritor Ron Suskind – passou a estimulá-lo nesse caminho. Owen fez amizade com grandes dubladores de animação e organizou uma comunidade de fãs com limitações semelhantes às suas. A vida ficou tão colada aos filmes que o irmão teve dificuldade em falar-lhe sobre sexo simplesmente porque não havia filmes pornôs da Disney.

Além de reconstituir sua história desde a infância, o documentário segue Owen por um período recente, em que seu árduo aprendizado e suas conquistas afetivas estiveram postos à prova, aos 23 anos de idade. Transforma em animação o relato autobiográfico de Owen, intitulado “A Terra dos Coadjuvantes Perdidos”, onde ele se vê lutando contra o vilão Fuzzbutch, que confunde a cabeça das pessoas. O resultado é inspirador, repleto de simpatia e também muito engraçado. O autismo, visto pela ótica da superação através de tão inusitada ferramenta, ganha tinturas de fábula cinematográfica ao mesmo tempo que enfatiza a distância da vida real.



TERRA DE MINAS é o último concorrente ao Oscar de filme em língua estrangeira que me faltava ver. O título internacional “Land of Mine” faz um trocadilho infame entre “terra de minas” e “terra minha” (a questão da nacionalidade é tocada já na primeira cena). O original dinamarquês é “Under Sandet”(“Sob a Areia”), referindo-se às praias da costa oeste dinamarquesa onde os alemães enterraram dezenas de milhares de minas terrestres à espera de um eventual desembarque dos aliados por ali. No filme de Martin Zandvliet, cessada a II Guerra, 14 prisioneiros de guerra alemães pouco mais que adolescentes são designados a localizar, desenterrar e desmontar parte dessas minas.

A dramaturgia é um pouco estreita, limitada à relação entre os garotos e o impiedoso sargento encarregado de comandá-los. Uma relação que oscila de acordo com certos chavões de vínculo emocional. O filme alimenta-se também de um suspense constante sobre a iminência de explosões e mortes, o que levou um crítico americano a classificá-lo como “essencialmente bomb porn“.

Apesar da boa escalação do elenco e da bela fotografia de Camilla Hjelm Knudsen, o que ressalta mesmo no filme é um esboço de estudo sobre a perversidade inerente às guerras. Dissociados da máquina do III Reich, os meninos alemães tornam-se vítimas indefesas do ódio antigermânico. Os oficiais dinamarqueses – e também ingleses, conforme uma rápida sequência – mostram-se tão ou mais cruéis que os nazistas. Nessa atmosfera pesada de revanchismo, a trajetória do Sargento Rasmussen (Roland Møller) sinaliza o papel da consciência e um possível resgate de humanidade.