Compaixão e vingança em ‘slow cinema’

Se fosse dirigir um videoclipe, o diretor filipino Lav Diaz podia escolher “The Devil Gltich”, de Chris Butler, que dura 68 minutos e é considerada a canção pop mais comprida do mundo. Em seus longas, a duração de oito a nove horas não é incomum. A MULHER QUE SE FOI, Leão de Ouro em Veneza 2016, dura “somente” 3h48. É a perfeita tradução cinematográfica da máxima segunda a qual a vingança é um prato que se come frio.

O seu único filme já lançado por aqui foi “Norte – O Fim da História” (4h10), que se inspirava em “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Este novo longa é uma volta aos russos, partindo de situação análoga à do conto “Deus Vê a Verdade mas Custa a Revelar”, de Tolstói. Uma mulher é libertada depois de 30 anos na prisão por um crime que não cometeu e perdoa a real assassina. Mas, no filme, Horacia (vivida pela atriz e produtora Charo Santos) não perdoa o ex-namorado que armou sua condenação por ciúme.

Forma-se, então, um enredo policial em ritmo de “slow cinema”. Enquanto planeja sua vingança, usando nomes falsos e disfarces, Horacia tenta refazer laços com os filhos e põe em prática sua verdadeira vocação: a de socorrer necessitados. Suas interações com um vendedor de baluts (embriões de pássaros na casca, fast food típica das Filipinas), uma mendiga com problemas mentais, uma família desassistida e um travesti epiléptico (John Lloyd Cruz, prodigioso) complementam o arcabouço melodramático.

Ao contrário de “Norte”, não embarquei no ritmo e na lógica de A MULHER QUE SE FOI. A história se passa em 1997 contra um fundo nacional de violência e injustiça social, veiculado principalmente em notícias de rádio. A insalubridade dos bairros pobres da ilha de Mindoro, filmados em horas mortas, fornece uma moldura triste e soturna. Ainda assim, é bastante frágil o elo entre esse plano macro e o conto central sobre vingança, generosidade e a suposta existência da graça de Deus.

Sem closes, nem maiores informações sobre os personagens, deambulamos com eles no escuro, à mercê do que suas angústias e idiossincrasias possam nos tocar. Se Lav Diaz acerta ao assinar a fotografia, num preto e branco de altos contrastes e resolução ultranítida, certamente foi complacente ao se ocupar também da montagem. A longa duração de algumas conversas, marcadas por um excesso de pausas retóricas, não me pareceu justificada. Tampouco a postura masculinizada de Horacia em uma de suas personificações. O vendedor e a mendiga são figuras cujo teor caricato não consegue ser disfarçado pelo verniz de amargura que encobre a todos. O filme é nobre e belo, sem dúvida, mas me exigiu um desprendimento de que não fui capaz.

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