A Jovem Guarda e os mil planetas de Besson

Sobre JOVEM AOS 50 – A HISTÓRIA DE MEIO SÉCULO DA JOVEM GUARDA e VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS

Depois da Bossa Nova e do Tropicalismo, faltava mesmo um documentário que complementasse a história da MPB dos anos 1960. JOVEM AOS 50 – A HISTÓRIA DE MEIO SÉCULO DA JOVEM GUARDA faz esse serviço com qualidades e deficiências.

Entre as qualidades está uma pesquisa pormenorizada, que traz à tona as origens, a evolução, a imensa repercussão e muitas histórias pitorescas da Jovem Guarda. Ter localizado e entrevistado tantas figurinhas carimbadas daquele contexto é um mérito inegável de Sérgio Baldassarini Jr., autor de todas as funções mais importantes do filme.

Na abertura, letreiros informam que não houve nenhum patrocínio ou incentivo fiscal envolvido na produção. Por mais louvável que seja uma iniciativa desse tipo, isso não isenta o documentarista de algumas escolhas infelizes. A narração de Milton Gonçalves, por exemplo, é completamente deslocada – pomposa, “interpretada” demais, cheia de erros de pronúncia. O texto é frequentemente cafona e redundante, assim como vários depoimentos se sobrepõem, estendendo a duração para 120 minutos. O caráter um tanto amador da realização se mostra em problemas de luz e acabamento visual.

Mas nada disso reduz a importância desse documento, seja pela simples presença diante da câmera dos astros e estrelas de então, seja pela conjunção de informações sobre as “jovens tardes de domingo” animadas pelo programa da TV Record. O nexo com a chegada do rock no Brasil, o papel estratégico de Carlos Imperial na projeção dos pioneiros e a nutrição inicial da Jovem Guarda com versões de músicas estrangeiras e pseudônimos americanizados são dados historiográficos preciosos. E que tal curiosidades como Paulo Silvino gravando como Dixon Savanah ou o Super 8 dos garotos dos The Jordans confraternizando com os Beatles em Londres? E a possível origem do nome Jovem Guarda num discurso do Lenin?

Não falta o momento de discutir a alegada alienação política dos jovenguardeiros, dedicados a cantar exclusivamente o amor e os carrões em plena ditadura. Não há sombra de autocrítica, mas somente reiteradas acusações à suposta intolerância da “esquerda da MPB”. Os meninos não queriam nada mesmo com política, mesmo que isso constituísse uma postura política.

O material de arquivo do programa se perdeu num incêndio dos estúdios da TV, mas o doc se vale de muitas cenas musicais inseridas em filmes da época – um tesouro para esse tipo de recuperação. A falta maior quem faz mesmo é Roberto Carlos, que se recusou a participar diretamente do projeto. Ainda assim, pela boca dos outros, ele não deixa de ocupar seu lugar de majestade.



VALERIAN E A CIDADE DOS MIL PLANETAS é uma barafunda sem pé nem cabeça, uma ficção científica tão descabelada quanto “Lucy”, o filme anterior de Luc Besson. Mas aí a gente se senta diante da tela (tem que ser bem grande, no cinema) e um mar de possibilidades visuais se estende diante de nós.

Com frequência, os cenários se assemelham à realidade virtual, só que limitada à frontalidade. O fetiche com os portais leva os personagens a cruzarem diferentes dimensões. Hibridismos e androginias se multiplicam, sobretudo na divertida variedade de espécies que habitam os tais planetas e desfilam já na sequência de cumprimentos da abertura. A diva pop Rihana faz o melhor segmento do filme no papel de uma cantora e dançarina mutante que inicia sua participação como a Liza Minnelli de “Cabaret” e termina como um ser de pura gosma azul.

São tantas as criaturas e tantos os ecossistemas que o próprio filme constitui um mosaico em contínua mutação. Os ambientes planetários são paródias de espaços terrestres, como a África litorânea e perolada de Mül (foto acima), o bazar árabe multidimensional de Alpha, um palácio mongol, uma “rua do pecado” que evoca Bangkok, um comando militar que lembra o antigo Leste europeu. Em meio a essa cornucópia de referências e extravagâncias, fica ainda mais difícil aturar o casalzinho de heróis customizado para agradar à plateia juvenil.

Na salada Besson cabem muitas intenções. Entre elas, a de fazer um pós-Avatar e a de levar a extremos de visualização o conteúdo de uma graphic novel – no caso, a série “Valerian et Laureline”, de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, este correponsável pela concepção visual de outra sci-fi bessoniana, “O Quinto Elemento”. Acabou ficando apenas um caríssimo pastiche, impossível de ser levado a sério mesmo como fantasia. Ainda assim, não nego que tem momentos de deleite para compensar as longas sequências de ação genérica e o romancezinho pífio de Valerian e Laureline.

E não falemos no sumiço de Laureline do título do filme, já que ambos têm protagonismo semelhante.

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