Thriller de guarda-pó

Enquanto via 150 MILIGRAMAS, eu me lembrava de O Óleo de Lorenzo, poderoso drama médico de George Miller (1992), igualmente baseado num caso verídico. Enquanto ali, os pais de uma criança enferma de doença raríssima lutava contra a burocracia médica e descobria o remédio salvador, em 150 MILIGRAMAS (La Fille de Brest) temos a situação inversa: uma pneumologista enfrenta o lobby da indústria farmacêutica para retirar um medicamento do mercado e indenizar as centenas de vítimas.

O remédio contra diabetes Mediator 150mg foi receitado durante mais de 30 anos na França como redutor de obesidade, tendo causado danos cardíacos fatais em cerca de 2.000 pessoas. A determinada Dra. Irène Frachon (Sidse Babett Knudsen) empreendeu uma autêntica jornada de heroína para alcançar seu objetivo. Precisou transpor obstáculos junto aos poderosos fabricantes, aos preconceitos com sua origem provinciana (Brest, na Bretanha), à censura, às formalidades científicas, ao descrédito da agência reguladora e até à covardia de um pesquisador muito próximo a ela (Benoît Magimel). Mas houve também os parceiros que juntaram esforços e não a deixaram esmorecer, mesmo quando as incompreensões, a perseguição e algumas fatalidades a impactaram.

Uma mulher quase sozinha contra “o sistema”. Esse é o tipo de história que já chega pronta ao cinema – e, portanto, oferece pouco além dos valores de humanismo e verossimilhança. A atriz e diretora Emmanuelle Bercot imprime um naturalismo minucioso à atuação do elenco, gerando uma impressão de veracidade muito útil ao seu tema eminentemente ético. Sidse e Benoît, sobretudo, brilham na composição da médica tenaz e do pesquisador submisso aos cânones da profissão. Afinal, boa parte dos recursos para a pesquisa médica vem de investimentos dos laboratórios.

Este é um thriller de guarda-pó bem realizado mas um pouco árido, salpicado de termos como valvopatia, cortizona inalável, fenfluramina e benfluorex. Inclui uma autópsia realizada nos mínimos detalhes anatômicos e um apego tão forte aos procedimentos cirúrgicos que até uma simples batida de porta na testa de Irène é motivo para uma sessão de sutura. O excesso de pormenores e de personagens, se faz justiça aos fatos, tem o efeito colateral de sobrecarregar e estender o filme para além da dose recomendável.

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