Pelé para americano ver

Logo nas primeiras cenas de PELÉ: O NASCIMENTO DE UMA LENDA, o menino Dico faz duas promessas. Ao pai, jura que um dia haveria de ganhar uma Copa do Mundo para o Brasil. À mãe, garante que será bonzinho para o resto da vida. O filme, então, prossegue como um cumprimento teleológico dessas promessas. Entre a derrota para o Uruguai em 1950 e a vitória na Suécia em 1958, o menino bonzinho se consagra como o maior craque da história do futebol. “Let’s samba!”, diz um locutor esportivo a certa altura do campeonato.

PELÉ é uma produção americana tocada pelo próprio Pelé e seu agente Paul Kemsey, com o suporte do super-produtor Brian Grazer associado a Rodrigo Santoro. A equipe, de primeira, inclui o diretor de fotografia Matthew Libatique, o preferido de Darren Aronofsky. Fica assim garantido um nível técnico invejável, inclusive nas muitas cenas de jogo. O trabalho do trio de montadores, dos “coreógrafos de futebol” (americanos) e da turma dos efeitos digitais responde por lances razoavelmente convincentes, ainda que por obra da picotagem da edição e do uso evidente de dublês. De qualquer maneira, pode-se dizer do resultado final que é futebol-ficção como os brasileiros nunca conseguiram encenar.

Mas as virtudes do filme terminam aí, pois tudo o mais é enumerar as virtudes de Edson Arantes do Nascimento, de sua sagrada família e de todos os que contribuíram para que o garoto acreditasse no seu sonho e no poder da ginga brasileira. A fórmula narrativa, americaníssima, providencia um pique dramático e um pique de entusiasmo a cada cinco minutos, sempre marcados pela música New Age de A. R. Rahman, o mais disputado trilheiro da Índia. Aliás, o convencionalismo melodramático é tanto que sugere um mau filme de Bollywood sem os números musicais.

Rodado em 2013 com vistas a ser lançado às vésperas da Copa de 2014, PELÉ sofreu com a necessidade de refilmar muita coisa e submeter o material a uma longa etapa de pós-produção, tanto de imagem como das dublagens em inglês. Chegou às telas defasado, em 2016, quando o Brasil pós-7×1 já não mais desfrutava do prestígio futebolístico de antes. Foi um fiasco de crítica e bilheteria nos EUA, saindo-se apenas um pouco melhor nas vendas internacionais.

Não era para mais. Baseado em maniqueísmos e conversões conciliadoras, veiculando imagem export e antiquada de um Brasil requebrante, o filme de Jeff e Michael Zimbalist (Favela Rising) é pura hagiografia de encomenda. São muitos os erros de informação e de cenografia, típicos de uma contrafação irresponsável. Os movimentos de câmera ao redor de Pelé à moda de Cidade de Deus e o tom de milagre celestial que acompanha as façanhas do jogador são exemplares de uma opção assumida pelo kitsch.

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