Ação com e sem sentido

Duas pílulas vadias sobre BLADE RUNNER 2049 e BOM COMPORTAMENTO

BLADE RUNNER 2049 não tem o impacto da novidade que foi o filme de Ridley Scott. Mas tem um bom argumento e uma concepção visual extraordinária. É um alívio ver um filme atual de ficção científica que não se pauta pela correria e a ação desenfreada. Dennis Villeneuve cria poucas e boas cenas de ação, mas prioriza a dramaticidade humana/androidica em termos que até evocam a tragédia grega.

Mantém-se, portanto, o nível conceitual do original. À dúvida existencial dos replicantes soma-se aqui a busca da paternidade, razão para Harrison Ford fazer uma antológica reentrada em cena.

Outro atrativo irresistível é o desenho de produção, que em vez de apenas criar gadgets cada vez mais exóticos investe na beleza e no poder sugestivo dos cenários e ambientes. A sequência da criadora de memórias (Carla Juri), as interações de K. (Ryan Gosling) com sua namorada “especial” (a beldade cubana Ana de Armas) e a briga entre Gosling e Ford em meio a espasmos virtuais de um show de Elvis Presley são momentos para não esquecer.

Esse é um filme que deve ser visto na maior tela possível e com som de alta qualidade. Em 3D (como vi no Kinoplex Rio-Sul), os efeitos ficam mais poderosos mas, em compensação, perde-se um bocado do brilho das imagens. Ora, mas de que vale dizer isso agora, se todo mundo já deve ter visto o filme?



Deve ser pessimismo cósmico de minha parte, mas os elogios que tenho lido sobre BOM COMPORTAMENTO me confirmam que o mundo não vai nada bem. Como alguém pode considerar original e digno de alguma admiração um filme onde dois babacas correm o tempo todo atrás de coisa nenhuma?

Por vezes, esse thriller pós-assalto-a-banco sugere que vai herdar um traço ou outro dos primeiros filmes de Scorsese, quando ele pintava as diatribes de pequenos bandidos urbanos. Mas essa impressão não resiste a uma única sequência inteira, pois tudo o que importa é disparar o fluxo da ação, e não a composição mínima de personagens ou contextos. Tudo é brutalismo: os motivos dramáticos, as atuações anfetamínicas, a violência corporal, a câmera nervosa, a montagem trepidante e a trilha musical destinada a produzir adrenalina.

Esse coquetel pode seduzir mentalidades adolescentes, cinéfilos afoitos e fãs incondicionais de Robert Pattinson, mas suas incongruências e o vazio absoluto de sua proposta não sustentam qualquer entusiasmo. A não ser como prova de que vivemos um momento de profunda crise de critérios, quando a técnica e os efeitos parecem constituir valores em si. Um tempo de tolerância à violência sem sentido e ao engodo artístico embalado em futilidade e barulho.

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