Os calcanhares sujos de Godard

Há um misto de desmitifcação e simpatia por Godard em O FORMIDÁVEL. O genial transformador da linguagem do cinema moderno é visto num momento de crise, quando a ideologia de esquerda abalava suas prévias convicções cinematográficas e também o romance que vinha mantendo com Anne Wiazemsky, sua estrela em A Chinesa. O filme de Michel Hazanavicius baseia-se no livro de Anne, falecida no último dia 5 de outubro.

O que mais chama atenção em Le Redoutable (título original que pode ser traduzido literalmente por “O Temível”) não é Godard como objeto de um filme de ficção, mas como personagem de uma comédia satírica, um espetáculo industrial todo ao contrário do que ele sempre almejou. Hazanavicius retoma o caminho das paródias do cinema depois de O Artista para fazer um retrato de Godard que, se não é exatamente iconoclasta, é pelo menos destituído de qualquer reverência.

Saído das filmagens e do fracasso no lançamento de seu libelo maoista A Chinesa, Godard (Louis Garrel) se junta a Jean-Pierre Gorin e radicaliza a opção pelo cinema político. Renega seu passado (“o cinema está morto, Godard morreu”) e passa a filmar libelos como Vento do Leste, em que cada posição de câmera é discutida numa espécie de assembleia geral. Irritado pelas cobranças de fãs para que volte aos filmes “divertidos” de antes, o enfant terrible vai se convertendo num homem iracundo e intratável. A relação com a doce Anne azeda progressivamente, na medida em que até o ato de bronzear a pele ao sol soa ao marido como desinteresse pela revolução. Contraditoriamente, porém, ele retém o espírito burguês no ciúme das relações pessoais e profissionais de Anne.

Por mais que sublinhe os pontos fracos da personalidade de Jean-Luc e a incompreensão que desde cedo suas posições suscitaram, O FORMIDÁVEL não deixa de fazer jus ao que constituía sua grandeza por volta de 1968. A ausência de papas na língua, a participação ativa no movimento estudantil (ainda que “pelo movimento, não pelos estudantes”), o célebre boicote ao Festival de Cannes e a recusa às concessões do sistema cinematográfico estão adequadamente representados.

Por outro lado, não há o menor risco de elegia. O Godard de Hazanavicius é o homem que custa a enxergar – daí a gag recorrente em que ele perde os óculos em todas as passeatas. É o amante capaz de interromper um momento de grande empenho sexual para comentar sobre Cannes. Mesmo os seus recursos (não)narrativos são citados em forma de pastiche: os grandes letreiros e grafites na tela, a desconexão entre som e imagem, as falas diretas para a câmera, os trocadilhos tão superestimados pelos godardianos incondicionais. O travelling memorável sobre o corpo nu de Brigitte Bardot em O Desprezo é reeditado com as medidas menos voluptuosas de Stacy Martin, no papel de Anne. A metalinguagem dá as caras para comentar o papel do ator no cinema, com ou sem roupa.

O grande acerto de Hazanavicius foi ter encontrado formas de tematizar e citar Godard sem querer imitá-lo. Em vez disso, retirou o mito do altar e enfocou a sujeira dos seus calcanhares. Grande parte da crítica internacional rejeitou o filme como uma inutilidade ou mesmo um sacrilégio. Para outros, entre os quais me incluo, é um divertimento impagável e, no fundo, uma homenagem apimentada pelo humor.

4 comentários sobre “Os calcanhares sujos de Godard

  1. Oi Carlos, plenamente de acordo com os teus comentários. Gostei muito do filme, tem um humor inteligente e o trabalho dos atores é excepcional e Stacy Martim é muito bela e sensual. Temo que tenha dado prejuízo, pois é um filme nada barato e Godard apesar de ser um personagem de grande importância, só é conhecido por um círculo muito restrito nos dias de hoje. O filme é também uma elegia à criação livre, sem amarras de conceitos políticos ou ideias abstratas sobre a arte. Revolucionar tudo, não existe e é muito bem demonstrado, pois acaba levando ao nada. Nos faz pensar sobre a dicotomia novo x velho, como em boa medida, falsa. Gosto do olhar do filme que em certa medida, adota o mesmo olhar que Godard reserva (ou reservava) para os outros. A cena do encontro com Bertolucci é maravilhosa bem como as cenas das assembleias estudantis. É tamvém curioso assistir esse filme com poucos dias de diferença do radicalmente distinto No Intenso Agora, de João Salles. Abçs

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