O fraudador que saiu do frio

Que caminhos pode tomar um documentário? Uma das coisas que mais me fascinam nessa modalidade de cinema é o valor do imprevisto. É a capacidade de um filme se transformar radicalmente enquanto está sendo feito. Vejamos o que ocorre com ÍCARO, indicado ao Oscar de documentário e disponível no Netflix Brasil.

Diante das denúncias de atletas russos num documentário alemão de 2014, que colocavam em dúvida todo o sistema de fiscalização antidoping nos esportes olímpicos, o diretor Bryan Fogel começou a fazer um filme centrado em seu próprio corpo. Ciclista amador, ele passou a se aplicar injeções de testosterona e esteroides para demonstrar como se pode fraudar os exames antidoping com relativa facilidade. Como orientador do processo, contatou o especialista russo Grigori Rodchenkov, encarregado do esquema de fraudes no laboratório de Moscou.

Até aí, o filme era apenas um projeto secreto e individual, apimentado pela figura divertida de Rodchenkov, com quem Bryan formava uma espécie de dupla cômica. Conversas pelo Skype, contrabando de frascos de urina de Los Angeles para Moscou e treinos exaustivos de Bryan para uma competição de ciclismo na França vão pavimentando o caminho para a grande virada.

Eis que Rodchenkov vai parar no centro do escândalo que atingiu os esportes russos entre 2015 e 2016. As equipes de atletismo ganharam 13 medalhas de ouro nas Olimpíadas de Sochi (2014) à base de muito esteroide e um engenhoso esquema de fraude mediante propinas e troca de amostras de urina “suja” por urina “limpa”. Tudo conduzido por Rodchenkov e bancado pelo governo e a FSB (antiga KGB). Fechado o laboratório, ele se torna uma fonte perigosa para a administração de Putin e, consequentemente, um cabra marcado para morrer.

Bryan não se amofina e segue em frente na parceria. Contar mais do que isso seria estragar o prazer de quem ainda vai ver o filme. Basta dizer que Rodchenkov se torna o personagem central de uma intriga internacional de primeira grandeza, na qual o próprio documentário desempenha papel importante. O documentarista como personagem é engolido pelo filme, e o seu projeto pessoal se abre para uma inserção global.

Isso resulta num labirinto de informações às vezes difícil de seguir. Mas o fundamental não se perde. Bryan adota o formato do thriller documental, num trânsito constante entre diversas cidades e personagens. Recorre a animações, materiais de arquivo inseridos com precisão cirúrgica e ressonâncias de George Orwell (1984 é um livro de cabeceira de Rodchenkov).

Os russos, afinal, não seriam excluídos das Olimpíadas do Rio, apesar de todas as evidências do caso. Mais recentemente, foram banidos dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018. As autoridades de Moscou, porém, nunca foram responsabilizadas por um esquema que vinha sendo empregado regularmente em distintas modalidades nas últimas grandes competições. Os exames antidoping continuam sob suspeita, mas o show do esporte deve continuar. E para isso, como dizia Orwell, é preciso duplipensar. Acreditar em duas coisas ao mesmo tempo. Negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo tomar conhecimento da realidade que negamos. O extraordinário ÍCARO nos faz perceber como isso funciona.

Aqui uma entrevista com Bryan Fogel (em inglês), em que ele reconta a saga da filmagem e seus desdobramentos.

Leia meus textos sobre os outros quatro indicados ao Oscar de longa documentário em 2018:

Visages, Villages  /  Abacus, Pequeno o Bastante para Condenar  /  Últimos Homens em Aleppo  /  Strong Island

3 comentários sobre “O fraudador que saiu do frio

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