Mataram meu irmão

STRONG ISLAND, outro indicado ao Oscar de documentário e disponível no Netflix Brasil, é um filme que levanta questões não somente em relação ao apartheid racial ainda ativo nos EUA, como também em relação a si mesmo.

No centro está a família do diretor Yance Ford. Através de depoimentos diretos dele, da irmã e da mãe, além de alguns amigos, relembra-se a morte do querido irmão mais velho, William, assassinado no interior de uma oficina de automóveis em Long Island, 1992. Em princípio, trata-se de um simples fait divers. Um acidente de carro envolvendo William e um empregado da oficina, um acordo informal para conserto do automóvel e uma sucessão de desentedimentos desembocaram na fatídica noite do crime.

A indignação de Yance e seus familiares, marinada ao longo de 25 anos, dirige-se à impunidade do assassino, um homem branco que, segundo eles, nunca foi tratado como sequer um possível culpado. A inevitável racialização do fato se justifica pelo histórico de discrepâncias jurídicas no tratamento entre negros e brancos. No caso da família Ford, os testemunhos acusam de descaso as autoridades policiais e judiciárias, assim como os jurados (todos brancos) que, numa primeira instância, acataram o argumento de legítima defesa e vetaram a abertura de um processo.

Esse retrato de uma família abalada por uma dor duradoura e inconsolável comoveu os votantes da Academia e, pelo menos em princípio, é capaz de tocar a qualquer espectador. Para um Oscar agora balizado pela correção política, STRONG ISLAND oferece uma dupla vantagem: é obra de um negro transgênero. Só bem depois da morte do irmão, Yance Ford assumiu-se como queer e mudou oficialmente de gênero. Ressalte-se ainda que o tópico LGBT é apenas subsidiário num filme centrado, isto sim, num caso de crime e impunidade.

São dignas de nota as semelhanças com o brasileiro Mataram meu Irmão, de Cristiano Burlan, em que pese a diferença quanto aos graus de estruturação das duas famílias.

Antes de passar aos aspectos mais discutíveis do filme, que envolvem spoilers, quero comentar algumas escolhas formais que incrementam a sua eficácia como meditação sobre a injustiça, o amor fraternal e o pertencimento familiar. Yance Ford evita qualquer dispersão, concentrando seu foco num pequeno grupo de personagens e em fotos de família manipuladas sobre uma mesa. As entrevistas, muito frontais e intensas, convocam o espectador diretamente – como, aliás, o próprio diretor faz questão de frisar em dois momentos. A emoção das pessoas nunca dispensa uma sobriedade altaneira que evidencia a elegância dos Ford. Alguns relatos são ilustrados por vinhetas de reconstituição à moda de Errol Morris em A Tênue Linha da Morte, mas ainda mais sutis.  

A partir daqui, o texto adianta elementos que no filme são apresentados de forma gradual e podem constituir spoiler.

Embora Yance Ford registre dois telefonemas investigativos seus sobre o tratamento jurídico do caso, STRONG ISLAND não é propriamente um documentário de investigação. É antes um desabafo sobre os reflexos emocionais da perda de um jovem de 25 anos e os traumas de um longo silêncio que se seguiu no interior da família.

Ainda assim, o filme sai em busca de uma reconstituição oral do que teria acontecido com o jovem William Ford, caracterizado em dado momento por um amigo como alguém que gostava de “sair pra arrumar confusão”. A partir de certo ponto, Yance começa a trazer fatos que pintam o irmão ora como um herói (ao testemunhar um assalto, ele correu atrás do assaltante e o dominou), ora como um “durão” capaz de reações violentas.

Só na metade do filme Yance revela um fato crucial que guardara em segredo até do resto da família. Ele soube que, um mês antes de sua morte, William fora à oficina com a mãe para retirar o carro e tivera um atrito sério no local, quando cometeu atos de violência material. Em nenhum momento Yance interpela a mãe sobre esse episódio, o que constitui uma lacuna inexplicável porque uma suposta ofensa a ela, na ocasião, teria agravado a rivalidade entre William e seu futuro assassino.

Da mesma forma, nada se pode inferir do que ocorreu de fato um mês depois no interior da oficina, quando William lá esteve para ameaçá-la de fechamento logo que entrasse para a polícia no mês seguinte. Restou a palavra do assassino como única versão.

As dúvidas que ficam sobre a especificidade do caso são fruto, em boa parte, de uma possível manipulação do filme quanto aos saberes envolvidos. Nada que desabone a sinceridade das lágrimas e a justeza dos argumentos dos Ford quanto à perpetuação de uma ordem que desfavorece sistematicamente os negros. Nem o rigor formal e a densidade dramática do filme. Mas a gravidade da questão chama à responsabilidade cada decisão de roteiro e cada omissão de palavra.

Leia meus textos sobre os outros quatro indicados ao Oscar de longa documentário em 2018:

Ícaro  /  Visages, Villages  /  Abacus, Pequeno o Bastante para Condenar  /  Últimos Homens em Aleppo  

3 comentários sobre “Mataram meu irmão

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