Fantasmagoria colonial

ZAMA chegou a ser indicado pela Argentina para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. Contribuiu para isso o prestígio da diretora Lucrécia Martel (O Pântano, A Menina Santa, A Mulher sem Cabeça) junto a certo público intelectualizado da América Latina. Mas, mesmo entre seus fãs menos incondicionais, o filme causou desorientação e perplexidade.

A América espanhola do século XVIII que vemos em ZAMA mais parece uma fantasmagoria surrealista que um drama histórico. Cavalos e lhamas aparecem magnificados na tela ao lado dos personagens em situações bizarras. Índios fantasiados surgem do nada para assombrar os brancos. Crianças proferem sentenças divinatórias. Adultos repetem frases que acabaram de dizer. Sons misteriosos perfuram nossos ouvidos e bolerinhos com violão elétrico enchem a trilha sonora de anacronismos meio jocosos.

Lucrécia estava de volta depois de nove anos sem filmar. Embora recorrendo a um livro de 1956 do escritor argentino Antonio di Benedetto, a diretora fez mais um filme alucinatório como os de sua própria lavra. Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho), assessor “letrado” da Coroa espanhola lotado no que hoje é o Paraguai, espera por anos a fio uma transferência que o leve de volta às belezas e confortos da Europa. A solidão, as humilhações, o desenraizamento e o ócio o tornam comparável a um peixe rejeitado pela mesma água que o faz sobreviver. Ou pelo menos é assim a metáfora anunciada logo no início.

Depois de uma longuíssima apresentação do personagem e de suas relações vexatórias com uma dama espanhola (Lola Dueñas, a melhor do elenco), com os sucessivos governadores e com os negros e índios escravizados (ele tem um filho com uma índia), Zama se engaja como voluntário numa caçada ao temível e lendário bandoleiro Vicuña Porto, que pode estar vivo ou não. É quando surge seu grande antagonista, um soldado brasileiro vivido com inexplicável acento gay por Matheus Nachtergaele.

Nas duas vezes em que vi ZAMA, precisei me manter em luta constante contra o tédio e para extrair esse fio de história como quem tenta compreender o relato de uma pessoa disléxica. O respeito de que Lucrécia Martel desfruta junto à crítica mais sofisticada explica os argumentos tortuosos que muitos colegas têm usado para dizer que adoraram se sentir perdidos e enfadados pelo filme. Não foi o meu caso. Achei muito difícil apreender o que a cineasta pretendia expressar sobre a época colonial. O degredo existencial de Don Diego só me provocou indiferença. A presença de escravos e índios fora de foco no fundo da cena, espremidos em cantos do quadro ou mesmo com a cabeça cortada pelo enquadramento, me pareceram banais como índices de sua exclusão social.

É o que inevitavelmente leva a pensar sobre as semelhanças de ZAMA com Vazante, de Daniela Thomas, que foi massacrado pela crítica identitária brasileira. Vazante era muito mais incisivo quanto à opressão colonial, seja de raça, seja de gênero. Mas Lucrécia, que eu saiba, até agora não foi acusada de ter feito um filme sobre “problema de branco” em plena era escravocrata. Não vi ninguém apontar que a montagem de Zama tenta dissimular um roteiro obscuro e uma encenação frequentemente esdrúxula.

A coprodução reúne nomes e recursos de vários países, inclusive o Brasil através da Bananeira Filmes de Vania Catani. Os irmãos Almodóvar, os atores Gael García Bernal, Diego Luna e Danny Glover se somaram aos produtores para viabilizar um tão esperado novo projeto de Lucrécia. A repercussão, porém, está longe de compensar tanto esforço.

O lançamento de ZAMA, contudo, traz a oportunidade de se rever os três primeiros filmes da cineasta na mostra que já passou pelo Instituto Moreira Salles de São Paulo e agora desembarca no IMS carioca.

P.S. Em atenção a conversa mantida com a produtora Vania Catani, uma amiga querida, retiro a frase riscada acima. Foi uma observação imprópria de minha parte, que reflete não uma opinião pessoal, mas uma suposição inadequada. Para os produtores e equipe do filme, assim como para tantos críticos que o admiraram, o esforço da coprodução certamente compensou. Peço desculpas.   

4 comentários sobre “Fantasmagoria colonial

  1. Parabéns pela corajosa crítica (e pela autocrítica) também. É sempre muito confortável para o crítico ficar em cima do muro quando assiste o filme de alguém que conhece. Isso cria um paradoxo no Brasil, país onde críticos e realizadores tem relações tão próximas. Creio que muitas vezes isso atrapalha o julgamento, e acaba tornando 95% dos filmes excelentes, ainda que muitos deles não se comuniquem com o público. Me identifiquei totalmente com sua análise do entediante Zama, embora também reconheça o talento da cineasta Lucrécia.

    • Graças pelo feedback, Felipe. Acho, porém, que a amizade e proximidade entre críticos e cineastas pode existir sem interferir na apreciação das obras. Eu, pelo menos, tenho vários cineastas amigos cujos filmes já critiquei responsavelmente, e a amizade perdura. Grande abraço.

  2. discordo de e questiono totalmente sua apreciação do filme! Primeiro: qual o seu conceito de “drama histórico”?! reconstituição “fiel” e decorativa de época?! dramaturgia convencional que “revele” “conflitos significativos” ou enuncie didaticamente “temas e questões” pré-pautados?! Por que “uma fantasmagoria surrealista” não pode ser UMA FORMA de “drama histórico”?! Aliás, uma forma BEM mais inteligente e reveladora do que os enjoativos, cartilhescos e previsíveis “dramas históricos” que estão a rodo por aí, no cinema comercial! Segundo: não faz o menor sentido considerar que toda a primeira hora e meia do filme é “uma longuíssima APRESENTAÇÂO do personagem e de suas relações vexatórias com uma dama espanhola” para que depois o personagem “se engaje como voluntário numa caçada ao temível e lendário bandoleiro Vicuña Porto”!!! O filme tem OUTRA estrutura, que foge completa e intencionalmente desta enunciada por você, que parece pressupor sempre e COBRAR dos filmes ” ‘apresentação’ seguida de início da ‘ação’ ” (?!?!?!) Toda a grande literatura já se livrou disso faz tempo, por que o cinema deveria seguir essa formulinha pobre e besta? As “relações vexatórias com a dama” não estão tratadas no filme como “dados DE ENREDO” mas como FIGURAS que reiteram o mesmo absurdo vivido pelo personagem em outras situações! Qual o problema em estruturar o filme dessa maneira e não como “progressão dramática convencional do tipo ‘apresentação seguida de ação’ ” que é a “estrutura” (sic) você gostaria que o filme adotasse?! Leia a excelente entrevista dada recentemente por Lucrecia Martel ao jornal El País para entender como a inteligentíssima cineasta questiona, com toda a razão, essa “ditadura do enredo” que assola ainda mais as telas e “gostos” depois que as execráveis “séries” se tornaram modinha, inclusive entre “pensantes”! Terceiro: o discutível “acento gay” que você leu no personagem do Matheus é mais um legitimo, inteligente e desnorteador elemento desestabilizador de expectativas “históricas” convencionais de construção de personagem! Quarto: acho a obra da Lucrecia uma das mais significativas do cinema contemporâneo e não é por considerar o “respeito de que Lucrécia Martel desfruta junto à crítica mais sofisticada”: o faço pela enorme inventividade e rendimento estético E HISTÓRICO de suas opções cinematográficas! Não “adorei me sentir enfadado e perdido pelo filme” e não senti “tédio” algum, bem ao contrário! Esse tipo de caricaturização agressiva das reações alheias e exposição arrogante da sua própria e PESSOAL reação ao filme não é função de CRÍTICA nem aqui nem na China! Fazer crítica de cinema compreende a abertura e o natural esforço de compreensão e aparelhamento intelectual que novas propostas estéticas NATURALMENTE exigem! Você tem todo o direito de não ter gostado do filme mas desqualificar grotescamente a crítica que o valoriza é bravata ridícula (à moda Sérgio Alpendre…) que expõe e desqualifica apenas VOCÊ como crítico sério! Quinto: se você “achou muito difícil apreender o que a cineasta pretendia expressar sobre a época colonial” não lhe passa pela cabeça que ela não pretende “expressar” nada “SOBRE a época colonial” mas figurar diretamente NA FORMA ARTÍSTICA (e não “enunciativamente”) uma sofisticada (sem a sua ironia!) e precisa LEITURA da época colonial?! Será o benedito que já faz décadas que Jean-Claude Bernardet desancou, num artigo, com toda a razão, essa história de “filmes SOBRE” e ainda tem gente que acha que papel de cineasta é “expressar” alguma coisa “SOBRE” alguma época histórica, situação social ou personagem!!!??? Francamente! Por último: acho inacreditável que você use “Zama” para botar pilha nessa ridícula e BURRA onda de discursos identitários que cobram de OBRAS DE ARTE posturas SUPERFICIAIS e RETÓRICAS de “engajamento” politicamente correto! Fica evidente que você torce para algum idiota de plantão “acuse” a cineasta “de ter feito um filme sobre ‘problema de branco’ em plena era escravocrata”! Tal desejo obscurantista de “ver o circo pegar fogo” NADA tem a ver com que leitores pensantes (agora sem aspas!) esperam, desde sempre, de uma CRìTICA digna do nome! O “roteiro obscuro” não cabe no “manual de roteiro” que você adota, é isso?! A “encenação frequentemente esdrúxula” deveria ser trocada pelo quê? Por uma que se pautasse eternamente na era JURÁSSICA dos conceitos sobre encenação teatral e cinematográfica?! Ora, vá estudar! Considero o filme que você NÃO SOUBE ler ou teve “tédio” de SE DISPOR A fazê-lo um dos grandes filmes deste século!

    • Lamento sinceramente que tenha ficado tão irritado com a minha opinião sobre o filme, mas, por outro lado, regozijo-me de acolher a sua em meu blog.

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