Duas mulheres, dois mundos

Sobre o dramédia romântico DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR e o documentário GÓRGONA

Um filme de mulher para mulher. De Claire Denis para Juliette Binoche, juntas pela primeira vez. DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR é um encontro e tanto. Isabelle (Binoche) é uma bomba de carência e confusão afetiva prestes a explodir. Pintora cujas obras nunca vemos, ela já não é nenhuma garota, mas ainda está em ótima forma. Separou-se do marido, está cansada de transar com homens casados e procura um amor verdadeiro. Afinal, aquilo é Paris, onde há sempre essa promessa.

Um banqueiro arrogante, um ator vacilante, um colega falante, etc. Isabelle cai dos braços de um para os de outro como se pulasse de pedra em pedra para não se afogar num lago. Mas tudo o que ela encontra – e talvez o que queira de verdade – é jogo e hesitação. Passar da palavra ao ato é uma dificuldade sem fim para os franceses. Deixa-os exaustos. Claire Denis põe isso em cena muito bem.

Não é fácil acompanhar o minueto de vontades, desistências, arrependimentos e indecisões de Isabelle e dos homens ao seu redor. Nosso GPS é a inesgotável capacidade de expressão de La Binoche. Ela sustenta longos closes nos quais vemos as emoções desfilarem por seu rosto como um filme dentro do filme. A linguagem corporal, os gestos e os sutis deslocamentos da câmera de Agnès Godard fazem um fino concerto visual que nos magnetiza até mesmo quando os diálogos soam barrocos demais e consequentes de menos.

Mas o melhor do filme é a súbita entrada em cena de um monstro sagrado do cinema francês no papel de um vidente. A consulta de Isabelle com esse personagem coroa seu processo de abertura para “a luz do sol” e, ao mesmo tempo, enterra de vez a ilusão de um amor único e perfeito. E de novo Claire Denis coloca as palavras como talvez a única forma de realização completa de um ideal.



Sem levantar-se da cadeira de rodas a não ser quando erguida para os aplausos, a atriz Maria Alice Vergueiro dirige e atua na montagem de As Velhas, de Alejandro Jodorowski. GÓRGONA documenta os bastidores desse tour de force físico, financeiro e espiritual da grande dama do teatro independente junto a seus companheiros de elenco e equipe do Grupo Pândega. Toda ideia de espetáculo é posta de lado em troca de uma observação dos ensaios, da convivência nas coxias e do dia-a-dia de um teatro feito na raça, sem patrocínio nem recursos. Fechar as contas é a cena final de cada noite, na intimidade dos camarins.

Maria Alice paga o preço da autonomia. Nunca se deixou seduzir pelo brilho do teatro de rico ou da televisão. Financia a montagem com empréstimo a juros. Hoje com 82 anos, enfrenta também a decadência corporal motivada pelo Mal de Parkinson. Entre montagens da peça em diversas cidades, ao longo de quatro anos, percebe-se a crescente falta de controle dos movimentos do corpo e da voz. Pedro Jezler e Fábio Furtado, os diretores, não nos poupam de presenciar esse declínio. Num dado momento, Maria Alice diz contemplar a opção da eutanásia.

O filme é duro e íntimo nesse aspecto. Por outro lado, é um elogio da resistência de uma atriz irreverente que – surpresa! – faz o sinal da cruz antes de entrar no palco. Maria Alice tem uma personalidade surpreendente, incisiva e terna, tudo ao mesmo tempo. Uma górgona, que na mitologia grega é uma feminilidade libertina e extravagante. O documentário procura captar estilhaços dessa personalidade nos intervalos da ação teatral. Infelizmente, não passa muito de um registro “doméstico” limitado pelas circunstâncias de um único trabalho. Tira melhor proveito quem já conhece a trajetória insubmissa de Maria Alice Vergueiro.

Um comentário sobre “Duas mulheres, dois mundos

  1. Adoro o trabalho de ambas! Estes filmes não chegam ao ” resto” do Brasil! Dá dó!

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