Ecos do Holocausto

No documentário ÁRVORES VERMELHAS, da brasileira Marina Willer, e no drama de época húngaro 1945 ressoam lembranças do Holocausto no Leste Europeu  

Em ÁRVORES VERMELHAS, Marina Willer conta a história de um sobrevivente. Seu pai, o arquiteto Alfred Willer, escapou por pouco do Holocausto nazista numa cidade tcheca, dos bombardeios dos aliados que atingiram sua cidade e ainda de um quase naufrágio na vinda para o Brasil. É um relato de memórias ora dolorosas, ora cheias de nostalgia.

Marina é uma designer estabelecida em Londres, conhecida no cinema por ter codirigido com Fernando Kinas o curta Cartas da Mãe, sobre a mãe do Henfil. Em seu primeiro longa, ela se insere com sutileza numa narrativa marcada pelo sentimento de alguém que vê a História passar por sua família como ecos de uma história pessoal. Sem se impor, mas sempre pontuando sua presença, ela visita velhas fábricas tchecas arruinadas, o campo de concentração de Theresienstadt e as cidades onde seus antepassados testemunharam as atrocidades cometidas contra os judeus na II Guerra.

A montagem de Karen Harley, associada a um belíssimo uso da trilha musical, valoriza a ilustração poética e o ritmo cadenciado de uma narração levemente emocionada. À primeira audição, causa estranhamento quando a voz frágil de Alfred, cedo ainda no filme, é substituída pela do narrador Tim Pigott-Smith, ator britânico falecido no ano passado. Mas logo esse dispositivo se naturaliza, a par do tratamento sofisticado das imagens e dos recursos de sugestão que capturam o interesse e a sensibilidade do espectador.

Não há como não pensar em Shoah, de Claude Lanzmann, pela forma como as lembranças se associam aos cenários do Holocausto. Marina cresceu na ditadura brasileira e hoje mora em Londres. O relativo distanciamento explica a visão um tanto romântica do Brasil que ela transmite perto do final do filme. Isso, porém, não impede que ÁRVORES VERMELHAS seja um ensaio tocante de afirmação da vida contra o horror e a morte.



Recém-finda a II Guerra Mundial, dois judeus chegam a uma pequena aldeia húngara com uma carga misteriosa em vários baús. É o suficiente para acabar com a tranquilidade do lugar, que se preparava naquele dia para o casamento do tabelião, autoridade máxima da aldeia. Durante a guerra, uma rica família judia fora entregue aos nazistas, tendo seus imóveis e bens usurpados pelos moradores.

O drama 1945 exagera na quantidade de acontecimentos de um único dia, envolvendo várias famílias, amores e temores. Isso resulta numa temporalidade confusa, em que os fatos se atropelam sem ressoar na consciência dos personagens. Apesar de tantas reviravoltas, o ritmo é moroso como o de uma antiga novela de época.

O diretor Ferenc Török dá mostras de uma influência muito superficial do cinema de seu conterrâneo Béla Tarr, sobretudo na fotografia em preto e branco e na imagem da carroça dos judeus desfilando pelas ruas como uma metáfora das culpas dos aldeões. De resto, são personagens estereotipados vivendo uma situação que se esgarça de maneira previsível até os baús revelarem, enfim, seu conteúdo.

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