Ladrões de cinema

Ilhas baianas e reflexividade cinematográfica aproximam projetos tão díspares quanto o documentário O OUTRO LADO DA MEMÓRIA e a ficção ILHA, exibidos no Festival de Brasília.

A história dos filmes não filmados ou não concluídos seria matéria para uma outra História do cinema brasileiro. E se cada projeto desse recebesse o cuidado e a devoção que André Luiz Oliveira dedicou a sua adaptação de Viva o Povo Brasileiro, teríamos um índice bem menor de perdas nesse campo.

Em meados da década de 1980, o baiano André Luiz estava afastado há 10 anos do cinema quando se interessou pela transposição cinematográfica do então recém-lançado livro de João Ubaldo Ribeiro. A produção, porém, só começou a ser montada depois que André se mudou para Brasília, em 1991. A rigor, só começou mesmo por volta do ano 2000, quando as pesquisas começaram a gerar estudos da arte do filme e o elenco começou a ser trabalhado, no eixo Bahia-Brasília. O escopo era de uma superprodução de época.

Em 2005, por falta de recursos em função de injunções políticas e reversão de prioridades dos produtores, o projeto foi interrompido após as filmagens de algumas poucas cenas. Desde então, o filme Viva o Povo Brasileiro jazia como pura memória para André Luiz e sua equipe. A ressurreição se dá no documentário O OUTRO LADO DA MEMÓRIA, exibido na Mostra Brasília do Festival de Brasília.

Nele, André se debruça sobre o material e as lembranças do quase-filme – e se sai com um filme maiúsculo que chega perto de nos restituir aquele que deixou de ser feito. Com isso, adiciona mais um exemplar de cinema autorreflexivo, como são os seus Meteorango Kid – Herói Intergalático, Louco por Cinema e Sagrado Segredo.

Buscar o outro lado da memória abrange revisitar a importância antropológica e literária do livro ubaldiano, que narrava a independência do país do ponto de vista da senzala. Inclui voltar aos membros da equipe, revisitar as locações principais na Ilha de Itaparica (terra de João Ubaldo e cenário frequente na infância de André Luiz), retirar dos baús os belíssimos storyboards, os materiais de pesquisa e, principalmente, as providenciais gravações de making of.

Aliás, esse filme é um elogio do making of, inclusive e sobretudo para projetos que não cheguem a se concretizar na tela. É o que pode garantir a permanência de uma memória, além de – como se vê aqui – dar corpo a um resgate precioso. As cenas de testes e oficinas de atores (conduzidas por Márcio Meirelles, um dos criadores do Bando de Teatro Olodum), o registro dos trabalhos da equipe de arte (cenografia, objetos, figurinos) e da pesquisa de locações no Recôncavo Baiano dão uma ideia do capricho e da escala da produção, ao mesmo tempo em que nos faz perguntar como se deixa tanto amor pelo cinema no meio da estrada.

O OUTRO LADO DA MEMÓRIA é a melhor resposta: retomar de outra forma, recuperar o muito que foi feito em outra chave, perguntar a si mesmo e aos outros. André Luiz interroga-se sem lamentação. Tenta mais uma vez compreender as razões políticas e econômicas da interrupção e procura, com a ajuda de intelectuais e artistas próximos, entender essa vocação brasileira para não seguir adiante, para não “tornar-se”, como diz o psicanalista Roberto Gambini. Indo além da autorreflexividade para chegar ao filme-ensaio, ele entrecruza referências etnográficas, históricas e espirituais no rumo de uma visão holística dos significados de Viva o Povo Brasileiro.

Tudo isso chega à tela eivado do estilo ponderado e poético que caracteriza o cinema mais recente de André Luiz. O sentido de espiritualidade (não religião) se sobrepõe a qualquer interesse mais rasteiro em sua investigação. Isso não o impede, porém, de fazer uma inesperada conexão da sina escravocrata brasileira com a votação do impeachment de Dilma Rousseff. É o aceno da memória para o contemporâneo.

Por fim, vale mencionar a beleza das poucas cenas filmadas agora nos teatros Castro Alves e Vila Velha, com fotografia de Luís Abramo e um mar cenográfico de grande impacto. Se acabamos ficando sem aquele filme completo , temos sua reverberação numa forma admirável. Isso é bem mais que um prêmio de consolação.



Da ilha de Itaparica viajamos para a não muito distante Ilha Grande, onde se passa o longa baiano ILHA, integrante da mostra competitiva do festival. O filme marca o retorno de Ary Rosa e Glenda Nicácio depois do sucesso de Café com Canela no ano passado. Mas aqui as coisas são bem diferentes.

ILHA parece procurar desesperadamente tocar em todas as teclas “da hora”: o cinema periférico e supostamente popular, a negritude, a ostentação gay e ainda a autorreflexividade sob a forma de metalinguagem.

A promissora situação inicial nos coloca diante de um famoso cineasta baiano sequestrado por um traficante intelectualizado para rodar um filme sobre sua vida. Sob ameaças, o cineasta Henrique Santos acaba topando a parada e desenvolve uma espécie de Síndrome de Estocolmo.

A proposta é que todas as imagens sejam mediadas por uma das duas câmeras em cena: a documental, que registra o processo, e a de Henrique, que filma a encenação. Divertida a princípio, a brincadeira passa pelos testes de elenco e as muitas discussões entre Emerson, o traficante, e o cineasta a respeito dos métodos de trabalho. Mas a eventual graça não custa muito a se esgotar, derivando para considerações ingênuas, distorções de ângulo sem razão aparente e mesmo cenas próximas do grotesco, como as intervenções de uma negra cega e andrajosa que diz se chamar “Brasil” ou a transa dos dois parceiros numa estradinha, filmada somente nos pés.

Sem a organicidade e o legítimo calor humano vistos em Café com Canela, esse Ilha se perde em pretensões naïfs e num dispositivo mal aproveitado. Se a intenção foi chamar de volta o tesão pelo cinema subdesenvolvido, o resultado, pelo menos para mim, foi broxante.

 

2 comentários sobre “Ladrões de cinema

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