Alemanha novelesca

NUNCA DEIXE DE LEMBRAR

Mesmo com as indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar de filme estrangeiro e ainda ao Oscar de fotografia (Caleb Deschanel), o alemão NUNCA DEIXE DE LEMBRAR não chegou aos cinemas brasileiros, tendo sido lançado somente em plataformas online. A duração de 3 horas e 9 minutos assustou o mercado, até porque o filme de Florian Henckel von Donnersmarck (A Vida dos Outros) se encaixaria melhor no formato de microssérie.

A história, bastante novelesca, segue o destino de um pintor, da infância em 1937 a 1966, passando do nazismo ao comunismo e à Alemanha Ocidental. O clássico paralelo entre o totalitarismo nazista e o stalinista é mais uma vez repisado através do déficit de liberdade na arte.

Kurt Barnet (Tom Schilling) carrega o trauma da perda de uma tia (Saskia Rosendahl) por quem tinha uma afeição edipiana. Contra um pano de fundo de esterilizações e mortes em câmaras de gás, o lugar do vilão será ocupado por um ginecologista da SS (Sebastian Koch), expoente da ideologia eugenista, que cruzará duas vezes o caminho de Kurt, por obra dessas coincidências de folhetim. Como se não bastasse, a mulher que vai conquistar seu coração (Paula Beer) terá o mesmo nome da saudosa tia.

Suntuosamente produzido e realizado, o filme se estrutura como um misto de drama familiar e thriller sobre um segredo que pode ser descoberto por Kurt a qualquer momento. Mas o insight decisivo, afinal, não lhe virá por vias racionais, e sim por uma epifania wagneriana ligada à música e à Natureza. Como ele via acontecer com sua tia meio “louca”. É o irracionalismo alemão abrindo as portas da mente.

Em termos de percurso artístico, Kurt Barnet (inspirado no pintor Gerhard Richter) transita da arte moderna (ou “degenerada” para os nazistas) para o realismo socialista e daí para um estágio infeliz na arte contemporânea, estabelecendo-se por fim no realismo da pintura fotográfica. Há referências diretas a Joseph Beuys (representado ficcionalmente no personagem do professor em Berlim Ocidental), Lucio Fontana e Jackson Pollock. Todos exemplos de artistas que deixaram a vida transpirar para suas obras.

Entre tantos ingredientes, alusões e subplots, von Donnersmarck não manteve o pulso necessário para dar conta desse trançado de História, arte e melodrama. O personagem central perde consistência progressivamente, terminando por ser apenas um vácuo em torno do qual giram os últimos compassos do enredo. O título original alemão, Werk ohne Author, significa “Obra sem Autor”, indicando, talvez, um dissolvimento que não é só da autoria, mas também do personagem.

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